Fragmento

O túnel sem ruído. Sei que se esvai num momento, o sabor de céu na boca sedenta de paraíso. Não sei onde me leva. Heloísa sabe. Ela sabe mudar a estrofe, tomar refresco com satisfação. Eu, prosa torta, cabeça cansada, aiiii. Lá vai de novo: outro dia, a respiração profunda. Passei. Que covardia mais abatida. Sérgio me dizia que eu fosse fundo. Eu aliás fui e mergulhei no mar clarinho numa manhã que quebrava a noite. Saiu ela. Seu nome é Heloísa. Somos muito amigas. Você vai conhecê-la. Há uma história para contar. Há lendas.

Há fatos. Se o desejo será satisfeito? Só você pode saber, se me ler, se me der uma mordidinha na orelha e der risadas de cócegas. Entre uma linha e outra, Heloísa me atrapalha. Travessa e debochada. Por que queremos sempre o mesmo fato, aquela foto que cansamos de tirar da gaveta e fotografamos de novo, mais uma vez. Sorria. Assim…Agora todos sentados. Que gracinha. Você, que é menorzinho na frente. Não apertem tanto o bebê.

 Agora. Não, cuidado com o abajur, ahh,clic. Que medo de não sair certo. Transponho o mal daqueles dias num passe de mágica agradeço aos bons ventos pelo seu impulso.

Há pessoas que se contentam em fingir se contentar. Não sei. Só sei do túnel que vem na frente e do espírito novo que ignora a rispidez do velho. Heloísa está rindo. Ela me convidou para ir ao cinema, mas eu não fui. Ela ficou me sacaneando. Falou do meu labirinto. Heloísa escreve uma carta e me mostra. Depois me interrompe e conta tudo sobre Sérgio. Sérgio mora em Roma, mas pode ser que ele esteja em Atenas. Deslizes da vidamar, quando sem rumo espero o alcance nítido da compreensão até a campainha tocar. Corpo imerso na vontade cruel de ultrapassar, esbarrando em solenidades críticas, tropeçando nas próprias pernas, embaralhando as mãos. Vou expandindo um ar vago, divagando situações. Passei. Dessa vez de uma agulhada na garganta. Heloísa percebeu e me fez um carinho. Desfechos espasmódicos concentrando-se na sólida pureza da voz sem fala. Da fala findando-se sem som, na escureza medonha das entranhas. Sinto o corpo todo ir se aquecendo, num redemoinho de águas mornas. Acho que morro este corpo amorfo. Num movimento cíclico feito um relógio, nado ritmicamente. Descontrolo a rigidez e me descubro fora…Que prazer…

Sérgio escreveu para Heloísa convidou-a para ir encontra-lo na Itália. Ela não quer-querendo. Vou questionar sim. Até morrer. Sair feito um doce de leite, da química do dia é a maldade destes dias que traz esse desassossego; é aquela gente contra esta fortaleza. São os rostos de vidro nas conversas tolas. Não quero. Sou meu sexo. Chega. Pára. Não para. Sinto vontade de mais. Não choro. Quero. Qual é o preço de se fazer planos? É a abstração, ohhh calma Heloísa. Calma. É o sonho de um encontro pleno num abraço gostosíssimo no aeroporto! Num momento só acontece. Bati a toalha e joguei fora as migalhas. Soube. Saberei exercitar o dia, na poesia. Sei que há vontades e vontades. Sérgio já acordou. A esta hora é dia na Europa.

Não nego o que fiz. Tenho ódio da minha submissão e agressões indignas e desrespeitosas. Ahhh vida tola essa de pensar e repensar. Ser feliz. Matar é passado  perfeito.

Sérgio é encabulado. Eu não. eu espero. Heloísa não espera. Ela já filmou o suficiente. O universo do amor fortuito se refaz num gole d´água limpa. Já vi muitos filmes Heloísa foi a atriz principal de um filme amador  e nós curtimos muito tudo. Passei… Desta vez sem pânico nem dor. Quero uma história sólida, sem pedir perdão ao estado. Apenas vivendo-os cada vez como se fosse a primeira. Passamos. Os dias parados. O choro entalado na garganta. Os dedos da mão atentos ao trabalho. Sinto     que as vozes fluem com calma-agora. São os caminhos sem música. Coragem de andar no incorpóreo vidro de gás carbônico com a cabeça fugindo do corpo. Volta. Tormento do silêncio pesado sem cheiro. Heloísa saiu. Foi à praia com uns amigos. Ela sempre me chama. Eu pouco vou. Eu vou-eu ia. As lágrimas correndo feito pérolas gigantes. Impetuosamente, sem aviso prévio, involuntária- incontrolavelmente. Deliramos.

Os suores se misturaram e o gozo foi pleno. Nossos cheiros se confundindo sempre, quero mais, você deixa? Já está chegando o dia de me decidir, quero engolir numa boa e não consigo, ando marcando bobeira, diz Helô, sinto-me contudo completamente desamparada e os vacilos se tornaram uma constante ahhhhhh. Dá pra você entender? A minha alienação não é culpa minha.

Em um mês, pois, o peso dos dias, a busca intranquila de trabalho novo somou-se a uma falta total de diálogo. Heloísa tem saído adoidada enquanto tento tomar maior consciência de mim, com lucidez resta o fim do começo. Engulo, resisto e não procuro saídas forçadas. Não entra em pânico, se acalma, se abre comigo. Só ando ao contrário, num contato próximo e visível de corpos que se confundem num coletivo colérico, egoísta e desorientado. Pondero. A análise cotidiana e um tanto monástica se tornou hábito imprescindível para ir levando. Nesta conformação estão muitas cabeças ingênuas entrando em contínuo desvario, alienatória, alucinantemente, sem rumo. Simples reações cheias de defesa exasperantes inseguranças, entregues às baratas, aos ratos. Aos morcegos estão as gerações do futuro.

Parei de querer entender tudo. Parei a tempo antes que me tornasse uma nuvem  mitológica sem nem haver morrido. Ou será que minha morte é o preço? Resta aos 25 anos um vazio colorido por uma cultura contorcida e ameaçadora. A partir da linha, azul partida de paisagem nova, revelo um sofrimento visceral morto aos meus pés. O exercício singular das palavras. Silencio aberta. Alerta reflito e vivo o sonho de um barco triangular. 25 anos. Por que não 52? Na paisagem incolor a manhã silenciosa desnuda a alma, estampa no semblante um sorriso e o barco, brinca com as ideias a partir do ponto. Segue vazio, na maciez da espuma como se de repente, novo lastro, pudesse seguir de vento em popa…Infinito reciclar. Respire bem 24 horas por dia. Depois, inteiro, saia da casca, quebrando o véu diáfano da fantasia, pule deveras para fora do útero-mãe-terra e sem virar poeira visual, preserve-se. Esta voz incorporada ainda vai me levar à loucura. Vai não. Vocês parecem que sentem prazer em ficar falando estas teses malucas até de madrugada. Você vai à praia amanhã? Tá um tempo lindo…Vou. Amanhã eu vou com vocês. Que posto? Ahh no 10? Quem é esse cara que Heloisa chamou aqui hoje? É até simpático. Não. Se continuar me olhando assim eu juro que agarro. Não é meu estilo esse de agarrar, mas até que a festinha está boa. Se eu fosse Heloisa-eu-ela. Você é linda. Muito bonita mesmo ( baixa os olhos). Os pensamentos se conversam,. O sol está quebrando a barra dos olhos e aquele beijo contido entre o violeta e o espaço negro da ainda absorvente noite de repentina paixão.

Desejo incontido. Nada era, se fosse, seria filme, ou será que foi? Tão real, tão fora do tempo…Nossa..( é engraçado como o raciocínio mata os sentidos.). Assim, atentos, nós dois, tão velho sentimento por tua sabedoria. Nós os autores da cor do silêncio, do cheiro da relva, da forma dos corpos. Acho incrível teu poder de. Amanhece a toda hora.  Parece que nunca vai parar de amanhecer. O sol reflete forte, dourando tudo, tudo mesmo; onde quer que eu esteja estou falando com você, e sempre acaba, quando eu olho e você não está lá..como te dizer que te amo? /Este gosto de brisa feito festa no rosto, festa de sal, na carícia atemporal: é este o segredo do amor original. Suas mãos habilmente masculinas, agora, de novo, continuará no estímulo dos voos? Dois voos altos, matando restrições e ideias malditas até alcançarmos o invisível amanhã. Passamos. Impossível fugir para o sul, leste ou faroeste, já que a noite sempre acompanha o dia, a natureza canta sua canção e nos entregamos à harmonia, à mudança fascinante destes ciclos tão bem desenhados, tão amarelo-foscos, infinitamente azuis.

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Fernanda Villas Boas
Fernanda Luiza Kruse Villas Bôas nasceu em Recife, Pernambuco, no Brasil. Aos cinco anos veio morar no Rio de Janeiro com sua família, partindo para Washington D.C com a família por quatro anos durante sua adolescência. Lá terminou o ensino médio e cursou um ano na Georgetown University. Fernanda tem uma rica vida acadêmica. Professora de Inglês, Português e Literaturas, pela UFRJ, Mestre em Literatura King´s College, University of London. É Mestre em Comunicação pela UFRJ e Psicóloga pela Faculdade de Psicologia na Universidade Santa Úrsula, com especialidade. Em Carl Gustav Jung em 1998. É escritora e psicóloga junguiana e com esta escolha tornou-se uma amante profunda da arte literária e da alma, psique humana. Fernanda Villas Bôas tem vários livros publicados, tais como: No Limiar da Liberdade; Luz Própria; Análise Poética do Discurso de Orfeu; Agora eu era o Herói – Estudo dos Arquétipos junguianos no discurso simbólico de Chico Buarque e A Fração Inatingivel; é um fantasma de sua própria pessoa, buscando sempre suprir o desejo de ser presente diante do sofrimento humano e às almas que a procuram. A literatura e a psicologia analítica, caminham juntas. Preenchendo os espaços abertos da ficção, Fernanda faz o caminho da mente universal e daí reconstrói o caminho de volta, servindo e desenvolvendo à sociedade o reflexo de suas próprias projeções.



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