Fotógrafo transforma sonhos de moradores de rua em realidade

O fotógrafo romeno Horia Manolache, hoje radicado nos Estados Unidos, desenvolveu um projeto estarrecedor no qual ele transforma sonhos de moradores de rua em realidade, por intermédio de suas fotos artísticas, e contando com ajuda em dinheiro e recursos.

O projeto chama The Prince And The Pauper (‘O Príncipe e o Mendigo’). O nome é baseado no romance homônimo do escritor Mark Twain.

Ao abordar os desabrigados participantes, Horia lhes faz uma pergunta simples: “Qual é o seu maior sonho?”. A partir das respostas, ele traça o perfil de cada morador de rua e faz os preparativos para as fotografias.

Em seu site, Horia escreveu:

“Para este projeto, eu fotografei moradores de rua em hotéis, garagens, locais de construção e nas ruas. Conheci pessoas com armas e pessoas com corações dourados.”

Os figurinos utilizados pelos sem-teto foram pensados pela esposa do fotógrafo. Ela também ajudou na maquiagem, nos cortes de cabelo e na montagem dos estúdios.

Uma semana foi o tempo necessário para fotografar cada morador de rua em perspectiva. Houve situações em que esse prazo atrasou; tudo dependia da velocidade e conveniência com que Horia encontrava os indivíduos e propunha sua participação no projeto.

O principal objetivo desse projeto é mostrar às pessoas desabrigadas uma chance de fazer com que suas histórias sejam ouvidas. Trata-se de avivar os sonhos de pessoas que se esqueceram de sonhar ou não tem a chance de fazê-lo.

Assim como qualquer ser humano, pessoas sem-teto têm aspirações, embora sua realidade seja ofuscada ou por si mesmos ou pela injustiça. Todos têm direito de buscar oportunidades, mas algumas pessoas – a grande minoria – estão sempre controlando quem tem acesso ou não a elas.

Sobre sua formação, Horia conta que, após dois anos matriculado num curso técnico de uma universidade da Romênia, ele abandonou os estudos – por falta de propósito – e foi procurar outra coisa para fazer que o fizesse se sentir mais livre. Ingressou então em um curso de fotografia e, anos depois, já formado, mudou-se para os Estados Unidos, onde reside e estuda artes (Universidade de São Francisco).

Quando chegou a São Francisco, Horia logo notou a enormidade da população de moradores de rua. De acordo com o jornal The Huffington Post, pesquisadores estimam que, em 2013, o número total de adultos e crianças sem-teto residentes em São Francisco era de 7.350. Estatísticas de 2015 mostram um ligeiro aumento para 7.539. A quantidade de desabrigados na cidade vem aumentando de forma gradativa, o que reflete em um problema crônico, este que motiva o projeto.

Horia já trabalhou em outros projetos que o levaram para cima e para baixo nas ruas da cidade e, durante o caminho, deparou-se com centenas de moradores de rua, tratando de empatizar com eles.

O americano ainda prossegue com o The Prince And The Pauper. Atualmente, ele angaria fundos – por meio da plataforma de crowdsourcing Indiegogo – para publicar um livro com mais informações sobre esse projeto fotográfico.

Com essa causa, Horia deseja mudar uma mentalidade do senso comum; uma generalização que se tornou marca de pessoas desabrigadas – a de que elas são ameaças e, portanto, devem ser evitadas. Outro equívoco comum é que as pessoas pensam que esses sem-teto são todos doentes mentais, preguiçosos, vândalos e assim por diante.

O projeto é parte de um movimento de justiça. Defende que o sistema social compreenda as necessidades das pessoas desabrigadas, e não que elas sejam reféns das necessidades do sistema.

Se imaginarmos todas as condições adversas desses indivíduos, teremos uma noção de como é improvável que seus sonhos sejam realizados. Eles não têm água, alimento, abrigo, higiene; suas mentes estão perturbadas pelos horrores de uma existência indigna. O projeto de Horia luta contra isso ao projetar uma centelha de esperança na vida dessas pessoas.

Outro projeto com foco similar a esse é o do fotógrafo inglês Lee Jeffries, que fez questão de se envolver intimamente com moradores de rua, para, em seguida, retratá-los em fotos artísticas, de modo que ele lhes proporcionou um raro senso de importância e ofereceu algum sentido para que continuassem vivendo, apesar das adversidades.

Por si só, projetos como esses não salvam ninguém, mas ao menos tornam o mundo menos pior. Em específico, o The Prince And The Pauper conscientiza e sensibiliza a sociedade em geral, no intuito de fazer com que mendigos não sejam tratados com desprezo por pessoas em estados financeiros mais privilegiados.

As fotos retratam moradores de rua em duas situações. Na primeira, vemos como eles realmente são; na segunda, como sonham ser. Confira-as, então, junto com os trechos das histórias individuais de cada participante, escritos pelo próprio fotógrafo:

1. Mike

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“Mike foi o primeiro fotografado neste projeto. Ele veio de Ohio, mas teve que fugir de lá porque costumava fumar maconha: a polícia o capturou e o colocou na prisão. Hoje ele reconstrói sua vida. Já tem um lugar para ficar e começou a trabalhar, graças à uma organização de São Francisco.”

2. Henry

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“Henry é ex-viciado em drogas. Agora, ele vende jornais para uma organização que cuida de moradores de rua. Ele vem do Mississippi. Em um ponto de sua vida, Henry teve que escolher com quem ficar: o pai ou a mãe. Optou pela rua.”

3. Honey

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“Honey fugiu de casa por causa de seu marido violento. Ela tinha um carro no qual dormir, mas quebrou e a polícia o confiscou, então ela passou a dormir num parque. Aprendeu a tocar ukulelê sozinha e cantar usando colheres. Ela é chamada de Honey (‘mel’) por causa de sua voz doce. Fez sua primeira apresentação musical no hotel onde a fotografei.”

4. Max

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“Max é um veterano da guerra do Vietnã e do Golfo. Serviu no exército por 43 anos. Ele diz que, quando voltou, desistiu de tudo e foi para as ruas. Agora, ele tem problemas com álcool e mal consegue andar. Já viajou demais. Hoje ele não tem contato com sua filha.”

5. Frank

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“Conheci Frank em Hunterspoint, São Francisco. Ele vivia em um trailer juntamente com sua esposa e seu cachorro. Uma grande preocupação para ele foi o fato de a polícia ter avisado que confiscaria sua casa. Diz que foi criado com um mordomo, mas as drogas o levaram até as ruas. Trabalhava em construções quando o conheci; tive que fotografá-lo na rua e em um canteiro de obras. Sua esposa queria ser bailarina, mas, porque ela estava acima do peso, sentiu-se desconfortável em posar para o projeto. Frank é uma das pessoas mais amáveis que já conheci.”

6. Dan

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“Dan teve uma vida tumultuada, acabou nas ruas não muito tempo atrás. Ele é um escritor, e descobrimos ter amigos em comum. Ele utilizará essa foto em seu próximo livro.”

7. Jennifer

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“Jennifer é da família McCloud. Ela veio da Irlanda, juntamente com o marido, mas, em algum ponto do casamento, eles se divorciaram. Ela é muito tímida quando está sóbria.”

8. Bill

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“Bill teve de fugir do Estado em que vivia. A razão da fuga parece ter sido injusta, mas ele nem teve alternativas, porque acabou sendo preso. Ele quis enviar essas fotos para sua mãe porque ela tem Alzheimer, dessa forma, ela irá reconhecê-lo quando voltar à sociedade.”

9. Shad

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“Esta foto é de alguma forma simbólica para mim, considerando os tempos em que vivemos. Sua identidade foi roubada, sua namorada roubou sua carteira, sua pontuação de crédito desceu, e assim por diante, até que ele ficou sem casa. Shad percebeu que sua vida era tão turbulenta que não tinha um momento para parar e pensar o quê seus sonhos representavam.”

10. Hatter

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“Hatter foi uma pessoa que me ajudou muito neste projeto. Ele tinha uma empresa de eventos na Califórnia, porém, uma vez que as autoridades descobriram que ele era um proprietário menor de 18 anos, Hatter foi multado em mais de $100.000, e teve que deixar tudo.”

11. Michael

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“Conheci Michael duas vezes; na primeira, não pudemos fazer a sessão de fotos, pois ele estava realmente muito irritado. Conheci-o novamente depois de vários meses, e ele parecia reconciliado consigo mesmo. Nessa foto, ele me mostra a tatuagem com o nome de seu filho e diz que sente falta dele. Perdeu sua mãe, seu trabalho e sua casa em apenas dois dias.”

12. Tammy

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“Tammy é uma pop star que mora em Haight Street, São Francisco. Se hoje ela não pode trazer um sorriso a seu rosto, alguém irá. Sua maior dor é que a avó e o primeiro marido levaram as crianças para longe dela.”

13. Pops

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“Pops esteve na guerra do Vietnã. Ele era um engenheiro, mas começou a usar drogas e perdeu o emprego. Viciado por 12 anos, foi internado em uma clínica de reabilitação. Infelizmente, hoje ele é alcoólatra.”

14. McKayas

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“McKayas viveu muito perto de Haight Street quando era criança. Ele se orgulha de que seus pais fizeram parte do movimento hippie na década de 60. Viveu no México, Havaí, Indonésia, Panamá, Bolívia, Costa Rica, Peru, e diz que pretende visitar todos os outros países do mundo.”

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Eduardo Ruano

Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.


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