A filosofia de Sêneca

Lúcio Anneo Sêneca nasceu em Córdoba, Espanha, em aproximadamente 4 a.C. Ele veio de uma família muito rica e possuidora de várias propriedades. Seu pai também era chamado de Sêneca – conhecido por todos como O Velho ­–, um prodigioso orador que em vida escreveu apenas uma obra, Declamações.

Sêneca, o jovem, foi educado em Roma desce cedo, tendo estudado, principalmente, retórica ligada à filosofia. Ele foi um dos filósofos mais argutos do mundo romano durante o primeiro século de nossa era.

Na juventude, levava uma vida simplória, recatada e absorta em introspecções racionais. Pouco se envolvia socialmente, a não ser quando as circunstâncias exigiam alguma interatividade.

Antes dos 25 anos de idade tornou-se advogado e ascendeu politicamente, passando a ser representante oficial do Senado romano. Atuou dentro do círculo governamental de Roma durante os principados de Calígula, Cláudio e Nero.

Calígula, famoso por seu temperamento colérico, passou a desdenhar e invejar as qualidades de Sêneca, este cada vez mais notório e influente como político. Os dois entraram em um conflito tão explosivo que Calígula chegou a decretar a morte do filósofo em público. Sêneca, entretanto, foi salvo, pois Calígula morreu antes de poder destruí-lo.

Sêneca passou os oito anos seguintes dedicando-se exclusivamente aos estudos. Neste tempo, redigiu tratados filosóficos, nove tragédias, uma comédia e três consolações, nas quais expõe os ideais estoicos clássicos de renúncia ao materialismo e busca da tranquilidade da alma por meio do conhecimento, da racionalidade e da contemplação na natureza.

Bem mais tarde, quando Nero ascende ao poder, Sêneca se torna seu conselheiro particular e orientador político. No início, as contribuições do filósofo romano eram recebidas de bom grado por quase todos os maquinadores políticos, mas, aos poucos, passou a ser criticado por sua postura contrária à tirania absoluta de Nero e acumulação de riquezas, incompatíveis com seus próprios valores morais.

Sêneca abandonou a vida pública em 62. Acusado de participar de uma conspiração chefiada por Pisão, que queria assassinar Nero, Sêneca é, por fim, condenado à morte por suicídio. Dizem que morreu serenamente, como pregava em sua filosofia, ou talvez não tenha sido assim. Alguns contam que sua morte foi um processo lento de pura agonia. Tragicamente, ele foi obrigado a cortar os pulsos e as veias da perna. Como se não bastasse, um médico ainda lhe aplicou veneno, para em seguida depositá-lo em uma banheira com água fervente, onde acabou morrendo sufocado.

Embora a causa da acusação de sua morte nunca tenha sido provada, Sêneca não teve tempo suficiente para justificar-se e já se sentia impotente demais para tanto. Menos importa seu fim do que o que fez em vida. Suas produções textuais, de importância inquestionável, deixaram um legado rico para a filosofia, principalmente no que tange a escola do Estoicismo, da qual foi o maior representante.

A visão estoica de Sêneca

O Estoicismo teve sua gênese em Atenas no fim do século IV a.C. Foi a maior das escolas filosóficas do período helenístico, configurado após as conquistas militares de Alexandre Magno.

A passagem da época clássica para a helenística foi marcada por fortes transformações sociopolíticas e culturais. Houve o desmoronamento das cidades gregas, as polis, e da filosofia especulativa, uma das características da cultura grega. No momento de dissolução das polis, o homem, livre, deixa de atuar na esfera pública. Sai da condição de animal político, que participa dos processos da cidade, para voltar-se em seu interior. A filosofia estoica preocupa-se com os interesses da vida centrada no homem moral.

Com essa orientação pautada nos problemas íntimos, destaca-se o Estoicismo, escola fundada por Zenão de Cítio, que propunha a austeridade física e moral, baseada na resistência ante a dor e o sofrimento, no desapego à riqueza material e apego à suficiência básica, e em uma vida mergulhada no âmago espiritual.

O Estoicismo preocupa-se com o dever, autodisciplina e sujeição à ordem natural das coisas. De acordo com Cambi (1999), o Estoicismo responde aos interesses do homem romano reformado, que se estendia revestido de uma humanidade universal, não mais se considerando apenas um cidadão ligado à esfera pública romana.

A filosofia estoica de Sêneca recebeu considerável influência não só de Zenão de Cítio, mas também de vários pensadores clássicos como Platão, Pitágoras, Sócrates e Aristóteles, bem como de poetas famosos, como Virgílio.

A doutrinação pedagógica presente na escola do Estoicismo encontrou similaridades nas atribuições de Sêneca, que propôs um modelo de educação individual. Segundo ele, a chave da formação se radica no esforço pessoal do indivíduo para se educar, mais ou menos como proporia Immanuel Kant, bem mais tarde. Nesse esforço particular pela educação, a vontade é o fator preponderante para que um homem educado seja qualificado como bom.

“Aquilo que pode fazer de ti um homem de bem existe dentro de ti. Para seres um homem de bem, só precisas de uma coisa: a vontade.”

Sêneca sugeriu que a vontade deve ser guiada exclusivamente pela razão, a fim de que haja uma plena adequação do homem à sua natureza.

A razão, para os estoicos, penetra tudo e se perfaz de tudo. Ela elimina qualquer forma de impulsividade no comportamento humano. Isso não significa que o homem consegue abster-se completamente de seus instintos, nem que pudesse, mas ele pode (e deve) evitá-los quando o que busca é a tranquilidade da alma.

As paixões, irresistíveis aos mortais, são consideradas pelos estoicos como desobediências à razão. São vistas como um pecado. Os estoicos acreditam que o homem deve desapegar-se de sua irracionalidade desvairada e seguir a natureza, deixando-se levar pelo destino e conservando o exercício da serenidade em qualquer circunstância que esteja ao seu controle. Esse estilo de vida ascético, que beira o impossível, era um dos motes de Sêneca e todos os estoicos, tão moralmente rigorosos.

“O nosso objetivo é, primacialmente, viver de acordo com a natureza.”

Se as paixões são desequilíbrios da ordem, Sêneca propõe o gerenciamento das emoções, a neutralidade de espírito; em suma, uma vida de complacência em que o homem passa vontade, ao mesmo tempo em que é guiado pela vontade de bem e virtude.

Ainda que seja paradoxal, o homem estoico, disposto a libertar-se das paixões, seria capaz de chegar a um nível de felicidade, através da prática virtuosa.

“O sumo bem é característica de um espírito que despreza os dons incertos da sorte e se compraz na virtude.”

A virtude estoica representa mais do que uma qualidade para a ação humana: é como um conteúdo para essa ação.

Momentos de paz e felicidade eram experimentados pelos estoicos a partir da retidão. Sêneca pensava que as opiniões da massa afastam o homem daquilo que lhe é apropriado segundo sua natureza, pois tendem a desviá-lo da razão. As agitações sociais, na opinião de Sêneca, prejudicam o potencial de contemplação humana.

“Para aqueles que tiveram muito de sua vida subtraído pelo povo, ela necessariamente faltou.”

Enquanto viveu, foi um ávido crítico do materialismo e da busca de satisfações capitais. Ele pensava que, no mundo, há tantos ricos miseráveis (como ele) quanto pobres que não se comprazem com sua condição, agindo mísera e igualmente. O pensador muito falou sobre a relação entre felicidade, riqueza e pobreza.

“Não é pobre quem tem pouco, mas quem deseja mais. Queres saber qual a justa medida das riquezas? Primeiro, aquilo que é necessário; segundo, aquilo que é suficiente.”

Sêneca não abnegava dos bens materiais, mas sustentava a noção de que muitos homens são consumidos por suas posses. Criticava os avaros e aqueles dominados pela luxúria. Para ele, a riqueza é meio e não fim da vida feliz.

Recursos materiais e propriedades não fazem alguém propriamente feliz, apenas propiciam conforto e mais oportunidades. O verdadeiro teste da felicidade é aplicado à pessoa caso todos os seus bens ela perca. Para o homem sábio, diz Sêneca, as riquezas lhe pertencem; já o imprudente, ele pertence às riquezas. O desafio está em dominar as posses materiais sem ser dominado por elas.

“A riqueza para o estoico não é um bem, mas, todavia, uma coisa vantajosa como a saúde física.”

Segundo o filósofo, sempre é vicioso o que for excessivo. A riqueza, administrada pela razão, pode gerar virtudes, como generosidade e prudência. Por outro lado, é sinal de fraqueza não conseguir suportar a riqueza. O romano acreditava que a riqueza causa mais males do que a pobreza.

A racionalidade invadia, em todos os sentidos, a percepção de Sêneca. Ele relacionava a razão com tranquilidade da alma, e entendia que um espírito bem formado consiste em ser capaz de parar tudo e coabitar consigo mesmo. O caminho de vida virtuoso, para Sêneca, é pavimentado pela razão contemplativa e envolvimento emocional moderado. O homem que se rende a todas as emoções se afasta do ínterim de sua consciência. O filósofo romano considerava as paixões humanas como sendo verdadeiros vícios.

“Os vícios atacam-nos, rodeiam-nos de todos os lados e não permitem que nos reergamos, nem que os olhos se voltem para discernir a verdade, mantendo-os submersos, pregados às paixões.”

É evidente que o bem-estar estoico não se traduz em uma vida de prazeres, mas de abstenções. É mais benéfico um estado de alma tranquilo do que deleitar em prazeres mundanos? Sêneca pensava que sim, afirmando que as emoções inerentes à satisfação dos prazeres mundanos não impedem o desespero humano.

“Certas coisas angustiam-nos mais do que há razão para tal, outras angustiam-nos antes que haja razão, outras angustiam-nos sem a mínima razão. Isto é, ou exageramos o nosso sofrimento, ou o sentimos por antecipação, ou apenas o imaginamos.”

A visão senequiana apregoa o racional em detrimento ao emocional na busca incessante do homem para entrar em harmonia com a natureza. Não obstante, essa vontade por tranquilidade seria inútil se o homem fosse privado de sua liberdade que, para Sêneca, está vinculada ao autoconhecimento.

“Liberdade é colocar a alma acima das injúrias, e conseguir transformar-se de tal maneira que seja possível extrair unicamente de si mesmo as próprias satisfações.”

Orientado pela vontade, razão e conquista da liberdade interior, o indivíduo pode, assim, e somente assim, se voltar para o campo privilegiado da investigação filosófica. De forma alguma isso é possível se o homem não investir no próprio ócio, no sentido de ser no exercício do ócio que o homem realiza sua formação reflexiva, e experimenta, quem sabe, um pouco de sabedoria, para a qual o caminho, segundo Sêneca, é a filosofia.

Em Sêneca, a filosofia não se limitava a um saber teórico, mas definia-se no exercício da virtude e deveria de manifestar na própria vida, motivo pelo qual era considerada um assunto eminentemente prático (Li, 1995).

Como afirmam Segurado e Campos (2004):

“A filosofia senequiana surge, assim, não como mera especulação, mas sobretudo como uma verdadeira terapia […] Um homem em quem a razão (e, portanto, a virtude) não passa a ato é um ser defeituoso. Há, consequentemente, que chamar-lhe a atenção para este mal. É o filósofo que cabe desempenhar tal tarefa, como se um médico fosse, e como tal entendeu Sêneca a sua missão.”

A função do filósofo estoico, como Sêneca, consiste em ajudar as pessoas a obter a tranquilidade e felicidade que tanto procuram. Essa filosofia deve curar os males da alma, e não somente definir em que eles consistem.

O Estoicismo de Sêneca pode ser estudado em seus tratados filosóficos. Dentre as principais obras de Sêneca, estão Da Vida Retirada, Da Tranquilidade da Alma, Sobre a Brevidade da Vida e Da Felicidade. Nelas, o filósofo romano apresenta uma visão orientadora, prática e discursiva sobre temas abrangentes como felicidade, morte, vontade, justiça, moralidade, virtude, poder e sabedoria.

Da vida retirada

Sêneca inicia seu tratado Da Vida Retirada afirmando:

“Os vícios nos acompanham constantemente. Mesmo que não buscássemos nenhuma outra coisa saudável, retirar-se, por si só, ainda poderia ser proveitoso, pois nos tornaria melhores do que somos.”

O pensador romano acreditava fielmente que a vida deve ser conduzida, em parte, segundo um princípio: o de viver na retidão, internalizado, ao invés de fragmentar a vida com projetos diversificados. Essa ideia é cada vez mais absurda no mundo moderno e, por essa razão, muitos comentadores contemporâneos dizem que a filosofia de Sêneca é impraticável.

Em vida, Sêneca não foi um ermitão como sua filosofia talvez faça supor. Ele viveu metade de sua vida rodeado de pessoas em sociedades produtivas nas quais ele também contribuía, ora com ações práticas, ora com conselhos nascidos de suas reflexões.

“O que se exige do homem é que seja útil ao maior número de semelhantes, se possível. Caso não consiga, que sirva a poucos, ou aos mais próximos, ou a si mesmo.”

Sêneca dizia que a natureza gera pessoas tanto para a contemplação quanto para a ação, e as dádivas da natureza seriam desperdiçadas se ficassem apenas visíveis para a solidão.

“A natureza quer que eu faça duas coisas: agir e dedicar-me à reflexão. Tanto uma quanto outra realizo, pois não pode haver contemplação sem alguma forma de ação.”

Segundo o filósofo, uma virtude humana distanciada da vida retirada é um bem imperfeito, uma vez que, inativa, não demonstra nenhuma aprendizagem. A eficácia das virtudes é verificada no que se faz, não no que se diz, enquanto a eficácia da contemplação de uma vida retirada está em organizar o pensamento prévio à cada ação virtuosa.

Uma vida retirada deve ser condensada com uma vida socialmente compartilhada. Embora Sêneca afirmasse ser necessário o recolhimento para dentro de si, também incentivava o contato social. Dessa maneira:

“Solidão e companhia devem ser mescladas e alternadas. Esta desperta o desejo de viver entre os homens; aquela, conosco mesmos. Portanto, uma é remédio para outra. A solidão irá curar a aversão da multidão, e a multidão, o tédio da solidão.”

Da tranquilidade da alma

No tratado Da Tranquilidade da Alma, Sêneca infere sobre aquilo que leva um homem à paz interior que tanto almeja.

Apesar de nunca ter passado por necessidades básicas como fome, por exemplo, e de ter possuído, devido a robustez financeira de sua família, muito dinheiro, Sêneca gostava de enfatizar seu discurso que valoriza a simplicidade das coisas.

“Agrada-me uma comida que não tenha sido preparada nem observada por muitos escravos domésticos, com muitos preparativos, mas que seja comum e de fácil preparo, que não tenha nada de rebuscado nem de exótico, que seja encontrada em qualquer lugar, que não seja pesada nem ao bolso nem ao corpo (…) Agrada-me a pesada prata do meu rústico pai, sem o nome do artífice, e uma mesa não tão vistosa pela variedade de cores, nem famosa na cidade pelas suas sucessões de donos elegantes, mas, que posta em uso, não desperte a volúpia de nenhum dos convidados nem lhes acenda a inveja.”

Mesmo rico, Sêneca vivia de forma simplória. Para uns, ele foi um avarento desgraçado; para outros, um homem que contradizia em palavras a própria realidade.

“Às vezes, minha alma se eleva com a magnitude do pensamento, torna-se ávida por palavras e aspira às alturas. Assim, o discurso já não é mais meu. Esquecido das normas e dos critérios rigorosos, elevo-me e falo com uma boca que não é mais minha.”

Sêneca esteve rodeado de riquezas por todos os lados, entretanto, sentia-se estranhamento melancólico por poder usufrui-las.

A busca por paz acompanha o homem durante toda a sua existência, não importando os estilos de vida que segue. Fazer com que a alma prossiga sempre de modo igual e no mesmo ritmo sereno é uma ambição suprema. Estar em paz consigo mesmo, sem que essa alegria se interrompa: a isso Sêneca chamava de tranquilidade.

Uma alma dedicada às coisas cívicas, desejosa de ação, não pode ser livre de tormento, pois está inquieta.

“Daí o tédio e o desgosto para consigo mesmo. Tal o desassossego que em lugar nenhum encontra descanso, projetando uma aflitiva intolerância da própria inércia, cujos motivos não ousa confessar.”

Os desejos por agir são o que mantém a alma liberta, mas também em perigo. O filósofo romano faz uma analogia entre a ânsia pelos desejos sensoriais e a vontade irresistível de coçar uma ferida quase cicatrizada. Na mente humana, irrompem desejos como feridas cujo tormento equivale à sensação de prazer. A intimidade entre dor e prazer é percebida em uma sensação ambígua.

“Assim, seus desejos fechados em sua estreiteza, sem possibilidade de evadir-se, acabam por sufocar a si mesmos.”

Da indisposição pelo próprio retiro, de se queixar por não ter nada para fazer e da impulsividade por satisfazer desejos, nasce a inveja. Segundo Sêneca, a inércia não desejada alimenta a inveja na alma, pois esta não conseguiu atingir o próprio êxito do prazer.

“Dessa aversão pelo sucesso alheio e do desespero em virtude de seus fracassos, a alma exaspera-se contra a sorte e queixa-se do tempo, esconde-se e afunda em autocomiseração, porque está entediada e com vergonha de si própria. Por natureza, a alma humana é ágil e pronta ao movimento, grata a tudo aquilo que lhe excite e distraia, e mais gratos ainda são aqueles que, por seus instintos, sentem prazer com a confusão de suas obrigações.”

O tédio é um obstáculo para a tranquilidade, embora a tranquilidade possa causar tédio. A ação social transforma o tédio em oportunidade de recuperar a necessidade de solitude.

“Se prescindirmos de toda comunicação, renunciarmos ao gênero humano e vivermos voltados unicamente para nós mesmos, resultará uma solidão vazia de ação. E, sem nada para fazer, começaremos a gastar mal o tempo que a natureza nos concedeu para consumir proveitosamente.”

O leitor pode notar uma dualidade na parte da filosofia de Sêneca que trata da tranquilidade da alma. Ao mesmo tempo em que a contemplação e retidão são gratificantes para a alma, esta não permanecerá tranquila por demasiado tempo, até que seja necessário agir.

“Assim, o melhor é misturar o repouso com a ação, sempre que a vida ativa não trouxer impedimentos ocasionais.”

Em sua posição como político, Sêneca afirmou que os cidadãos devem examinar a si mesmos, os negócios que vão empreender e, por fim, aqueles pelos quais (e com quem) irão trabalhar. Dependendo do trabalho, a uns é melhor a timidez; a outros, a assertividade. O perfil de um homem escolhe o serviço que ele deve fazer.

“Talentos forçados respondem mal; se a natureza é relutante, o trabalho é infrutífero (…) Devemos examinar as obras que empreenderemos e comparar as nossas forças com as coisas que vamos tentar fazer, pois sempre deve ser maior a força daquele que trabalha do que a da obra a ser realizada, visto que, obrigatoriamente, se as cargas forem maiores que o carregador, elas irão oprimi-lo com seu peso.”

Neste tratado, Sêneca também reforça suas considerações sobre a dicotomia entre riqueza e pobreza. Para ele, não ter algo é menos doloroso do que perder algo. As pessoas dão mais valor às coisas quando as perdem e, além do mais, há ricos que têm tudo, mas sentem como se não tivessem nada, enquanto há pobres que agradecem muito pelo pouco que têm. A perda é, de acordo com Sêneca, pior do que a falta de conquista.

“É mais fácil e tolerável não adquirir do que perder, e por isso verás mais alegres a quem a sorte nunca olhou do que aqueles a quem a sorte abandonou.”

Com relação a dinheiro, o pensador estoico dizia que o melhor critério consiste em não cair na pobreza, nem dela afastar-se totalmente.

“Esta medida de contenção só nos agradará se antes tomarmos gosto pela parcimônia, sem a qual nenhuma riqueza é o bastante, já que a modéstia também pode levar ao desperdício. Como se trata de recurso que está ao alcance de nossas mãos, se assumirmos a parcimônia, a própria pobreza converte-se em riqueza.”

Sêneca prossegue neste tratado abordando o riso como sendo uma característica humana indispensável ao alívio das tristezas, portanto, crucial para a tranquilidade da alma. É mais adequado à natureza humana rir que lamentar da vida.

“Aquele que ri tem alguma esperança, porém, aquele que chora estupidamente não espera que possa se corrigir. Enfim, quem contempla o conjunto da realidade humana demonstra ter maior grandeza de alma ao não conter o riso do que não conseguir reter as lágrimas.”

Nos capítulos finais da obra Da Tranquilidade da Alma, o pensador romano fala sobre dissimulação. Para ele, é preocupante alguém assumir o hábito de tomar atitudes que não demonstram aos outros o que é realmente.

“De fato, o constante autocontrole atormenta tanto quanto o receio de ser pego num papel diverso daquele que está acostumado a representar.”

Não é segura a vida dos que vivem sob uma máscara. De longe, a máscara esconde aquilo que as primeiras aparências não conseguem enxergar, mas existem aqueles que se enfastiam do que veem muito de perto, para os quais a máscara se torna invisível, e assim o desmascarado perde a vantagem que pensava ter enganando.

Diferentes posições exigem comportamentos diferentes, mas, para cumprir os variados atos, não necessariamente a pessoa precisa se desviar de sua personalidade, ainda que em certas circunstâncias a verdade sobre ela seja autodestrutiva.

“Mas não existe perigo de que a virtude se torne vil ao se aproximar dos olhos, e é melhor ser incomodado pela simplicidade do que por uma perpétua dissimulação. Desse modo, sejamos moderados, pois há muita diferença entre viver com simplicidade e viver com negligência.”

Sobre a brevidade da vida

Em Sobre a Brevidade da Vida, Sêneca escreve com muita propriedade sobre o aproveitamento da vida, questões existenciais, a relação entre tempo de vida e tempo vivido, e a consciência da mortalidade.

“Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregarmos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos; nem somos dela carentes, mas esbanjadores.”

Neste tratado, Sêneca faz analogia entre o aproveitamento da vida e a alocação de um recurso. Se recursos abundantes caem nas mãos de um mau senhor, esgotam-se num instante. Se recursos escassos são confiados a um bom senhor, crescem pelo uso, assim como a vida se estende agradavelmente por muito tempo àqueles que sabem dela dispor. O filósofo desdenhava da reclamação de pessoas que pensam que a vida passa rápido demais.

“Costumo estranhar quando vejo alguns pedindo tempo, e aqueles a quem se pede mostrarem-se muito complacentes; ambos consideram aquilo pelo que se pede tempo, nenhum, o tempo mesmo: parece que nada se pede e nada é dado. Brinca-se com a coisa mais preciosa de todas; contudo, ela lhes escapa sem que percebam, pois é um incorporal e algo que não salta aos olhos, por isso é considerado muito desprezível, e em razão disto não lhes atribuem valor algum.”

Como mortais, as pessoas aterrorizam-se, mais de uma vez, pela finitude de sua existência. Em Sobre a Brevidade da Vida, Sêneca sugere que a arte de viver também deve ser a arte de morrer. Para menos sofrer, diz ele, é necessária uma preparação para a morte, não no sentido de que ela seja esperada, mas superada. Citando o político romano Mânio Cúrio Dentato: “Eu prefiro estar morto a viver como morto”. O último dos males é sair do número dos vivos antes de morrer.

Sêneca tinha uma visão frívola e pragmática sobre a finitude existencial. Um de seus dizeres é idêntico a que defenderia Montaigne:

“Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer.”

Segundo Sêneca, o homem deve ser compreendido para a morte, porque não pode desobedecer essa que é uma determinação da natureza.

Por mais ameaçadora e angustiante que seja a morte, sua reflexão pode trazer consolo e paz. A morte não deve ser atraída como solução às angústias existenciais, mas conscientizada e aceita, porque é um fator indissociável da vida.

Enquanto criam expectativas, as pessoas talvez se esqueçam de viver o exato momento; projetam um futuro incerto e depois se arrependem pelo passado. Ausentam-se do presente, senão desejam que passe depressa.

“Se não ocupares o dia, ele fugirá, e, contudo, se o tiveres ocupado, ainda fugirá; portanto, deve-se lutar contra a celeridade do tempo usando de velocidade, tal como se deve beber depressa de uma corrente rápida que não fluirá para sempre.”

O pensador estoico teorizou que a vida pode ser dividida em três períodos: o que foi, o que é, e o que há de ser. Destes, o que vivemos é breve; o que havemos de viver, duvidoso; o que já vivemos, certo.

Certa vez, Sêneca recebeu uma carta de seu discípulo Lucílio, que dizia temer a morte mais que qualquer outra coisa. O filósofo respondeu que seria preferível morrer com coragem a morrer com temores:

“Se vês o último dia, não como castigo, mas como uma lei da natureza, nenhum temor ousará penetrar nessa alma de onde tiveres expulsado o medo da morte.”

Sêneca sugere que o indivíduo, para inclinar-se à tranquilidade, não deve temer a morte, mas a possibilidade de não viver enquanto vive. Há de se fazer da brevidade da vida um tempo de arte, e uma arte com o tempo.

“Na vida é como no teatro: não interessa a duração da peça, mas a qualidade da representação.”

Da felicidade

Por fim, em Da Felicidade Sêneca argumenta que a felicidade se constrói a partir da virtude, da razão, da moderação e da harmonia com a natureza.

Todas as pessoas têm uma coisa em comum: querem ser felizes.

“Mas, para descobrir o que torna uma vida feliz, vai-se tentando, pois não é fácil alcançar a felicidade, uma vez que quanto mais a procuramos mais dela nos afastamos. Podemos nos enganar no caminho, tomar a direção errada; quanto maior a pressa, maior a distância.”

Essa perspectiva preza a serenidade e alegria que vem do interior, daquele indivíduo que não deseja bens maiores que os próprios. Feliz é aquele que, satisfeito com sua condição, desfruta dela. O filósofo defende que uma vida feliz é moderada e sem excessos. Na atribuição de Sêneca, deve-se praticar a virtude em detrimento do vício para ser feliz.

“Aqueles que tenham se entregue aos comandos do prazer enfrentarão duas dificuldades. Primeiro, perdem a virtude e não terão o prazer, pois por ele são dominados; ou se atormentam pela sua falta, ou se sufocam em sua abundância. Infeliz quem dele se afasta, mas muito mais quem por ele for soterrado. Ao colocar o prazer na frente de tudo o mais, o homem descuida, em primeiro lugar, da liberdade. Este é o preço pago, já que prazer libertino não se compra, a ele se é vendido.”

Por meio de várias reflexões excelentes sobre a felicidade, Sêneca nos mostra seu ponto de vista acerca de como o diferencial para alguém ser feliz está no desapego à fortuna; no desejo de alcançar a sabedoria em vantagem aos bens que se possui.

Neste tratado, ele também reflete sobre como muitas pessoas se preocupam com valores estéticos e se apoiam em padrões eternos de beleza, tudo para experimentar uma felicidade, que, no entanto, não deixa de ser superficial.

“Convém nos afastar da pompa e medir a utilidade das coisas, e não a sua beleza exterior.”

Sêneca aponta que uma das causas de infelicidade é dedicar-se com prioridade às aparências ao invés de se voltar para a beleza interior.

“Apoia-se em bases frágeis quem faz sua felicidade depender de elementos externos. Toda a alegria que assim surge logo se vai; no entanto, aquela que vem do interior é firme e sólida.”

Sêneca sugere que ter consciência do próprio valor também é reconhecer as próprias falhas. A soberba é um impedimento do homem feliz, e o orgulho exagerado de si não é ser consciente do valor próprio, mas uma outra forma de inconsciência. Reconhecer o valor próprio (e as falhas) não é já chegar à felicidade, mas se pôr a caminho dela.

O homem consciente de si, que não se deixa possuir pelas suas posses, não precisa de um lugar físico para ser feliz, pois a felicidade provém da sabedoria e da virtude, e estas têm sua validade em qualquer lugar.

“O verdadeiro bem não desaparece, certo e duradouro, consiste na sabedoria e na virtude, sendo a única coisa imortal que cabe aos mortais.”

A felicidade, segundo Sêneca, consiste em uma alma livre. A incerteza e imprevisibilidade são invisíveis aos olhos do ser humano feliz, pois a afabilidade e a calma de espírito o invadem com uma intensa alegria.

“Uma vez que se começa a discutir a questão amplamente, pode-se chamar de feliz aquele que, graças à razão, não deseja nem teme.”

O desejo mantém o sofrimento longe somente enquanto a razão está alerta. O ser se sente mais feliz (e seguro) assim, sabendo administrar o apego ao desejo para que seus maus instintos não o traiam quando da sua falta.

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Eduardo Ruano
Profissional de pesquisa e texto. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e ansiosa. Gosto de ler, escrever, ouvir Thrash Metal e música eletrônica, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de filosofia, arte e psicologia. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.

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