Existe um caminho para se chegar lá…

Uma amiga que admiro muito me revelou o desejo de um dia ser diplomata. Já bem sucedida em sua carreira, eu não me surpreendi. Com grande senso de justiça, sensatez e coerência, me pareceu que ela tem todas as características para tal. Além disso, ela tem a consciência de que mais do que o conhecimento adquirido em sua vida e carreira, para este fim é necessário experiência de vida.

Ninguém chega lá, na realização de seus sonhos, do nada. Percorre-se um caminho. E apesar dos sonhos e objetivos de cada um não serem iguais, há algo que se assemelha: o caminho a se trilhar. É preciso haver merecimento, luta e real desejo de se chegar lá. Seja este “lá” onde for.

Dependendo dos sonhos de uns e outros, o alcance dos objetivos se torna algo para longo prazo. Muitas vezes não é suficiente apenas um diploma, mestrado e fluências em vários idiomas, mas fluência em viver. Existem competências que nenhum certificado trás. Aptidões que nenhuma universidade ensina. E conhecimentos que só chegam através da dor e experiência de vida.

Alguns sonhos podem até parecer simples, como o de ser um escritor. Se escrevo desde criança, aparentemente é um sonho fácil de ser alcançado, mas não é verdade. Um escritor tem de saber tocar a alma de seus leitores, ele tem que entender como funciona a vida e as pessoas em toda a sua complexidade. E qual a forma de se adquirir essa sabedoria? Vivenciando, sofrendo e crescendo por dentro, transformando dores em palavras que confortam. Amores desiludidos em novas formas de encarar o amor e toda forma de ferida ou cicatriz em um novo olhar.

Minha amiga, a futura diplomata, precisa falar vários idiomas, ter senso de justiça e diplomacia. Ela irá precisar de tolerância para lidar com as diferentes culturas e preconceitos, além do poder de adaptação para viver em lugares estranhos. Ninguém ensina alguém a ser diplomata. Não se ensina a ser tolerante com o divergente. Se aprende com a vida, em algum momento, no meio do caminho e sem manual de instruções.

Há o que se aprende na escola e na faculdade, mas também o que só se aprende quando se tem alma para tal. Por este motivo existem médicos e médicos, advogados e advogados, juízes e juízes, professores e professores. Não se muda o nome do profissional, mas muda a diferença que ele faz. Existe o médico que busca a cura interna de seu paciente, o advogado que luta por real justiça e o professor que desperta a motivação de seus alunos.

Num mundo de diversas profissões e sonhos, com milhares de universidades mundo afora, não é o nível do diploma que cria o diferencial, mas aquilo que cada um se dispõe a aprender na vida. Alguns passam por ela com respeito, aprendendo com humildade a sabedoria divina do viver de cada dia. Outros não entendem a dimensão do que é a vida.

E no fim, o que difere as pessoas umas das outras é o percorrer intenso deste caminho, a compreensão profunda de que são das dores e fracassos que se tira o melhor que se pode ser.

Ninguém chega lá sem dor. E muito menos permanece.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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