Eu tenho medo de que as coisas não mudem.

Há quem passe a vida toda morando na mesma casa, trabalhando no mesmo endereço, executando a mesma função. Fazendo o mesmo trajeto todos os dias, estacionando o carro na mesma vaga e sentando-se à mesa no mesmo lugar para realizar todas as refeições. Talvez haja nessa rotina a falsa sensação de segurança e de comodidade, porém é preciso pensar que tudo isso resulte num “enferrujamento” do nosso cérebro.

Conheço gente que gosta de ir sempre ao mesmo supermercado alegando saber onde encontrar cada produto sem precisar procurar. Eu também já ouvi relatos de pessoas que quase entraram em colapso quando perceberam que o trajeto diário para ir para casa havia sido impedido por uma obra. Parece que o nosso cérebro acomoda-se e passa a funcionar “no automático” quando é pouco exigido. É mais ou menos assim que funciona: falando de forma bem grosseira, quando repetimos ações sempre da mesma forma, utilizamos pouco a nossa capacidade cerebral. Agimos “sem pensar”, o que é muito cômodo, tanto que, se algo impede a ação automática, por alguns segundos ficamos sem saber o que fazer, até que nosso cérebro processe uma nova alternativa – e para isso, ele realiza novos trajetos dos impulsos elétricos, que chamamos de sinapses.

Realizar tudo sempre da mesma forma pode ser prejudicial ao nosso cérebro, pois deixamos de treiná-lo. Acredita-se que o exercício constante das funções cerebrais possa ajudar na prevenção de doenças neuro-degenerativas, inclusive o mal de Alzheimer, cujas causas ainda não são totalmente conhecidas.

Mais do que aceitar as mudanças em nossa vida de forma positiva, é importante provocá-las de tempos em tempos. Um novo emprego ou uma mudança de residência pode fazer com que nosso cérebro saia da zona de conforto. Caso isso não ocorra, podemos ser agentes de pequenas e fáceis mudanças muito benéficas. Não ir sempre ao mesmo supermercado, não fazer sempre o mesmo trajeto do trabalho para a casa e de casa para o trabalho são bons exemplos disso. Outra dica bem interessante é mudar os utensílios da cozinha dos armários. Não guarde os copos no mesmo local a vida toda, troque tudo de lugar de tempos em tempos. Isso pode ser feito também com as roupas, sapatos e nas gavetas do banheiro. Faça de modo a ter que pensar onde podem estar o que você procura. Encoraje-se a ir onde nunca foi. Percorra ruas desconhecidas. Faça o que e/ou da maneira ainda não fez.

Uma vez por semana, aventure-se a tomar banho e/ou vestir-se de olhos fechados. Anular a visão fará com que você busque os outros sentidos. De forma geral, pessoas com deficiência parcial ou total de um dos sentidos acabam desenvolvendo mais os demais exatamente porque exigem mais deles. Ao sentar-se à mesa, não utilize sempre o mesmo assento, troque de lugar vez em quando. Se possível, troque também os móveis de lugar nos vários ambientes da casa e, se for o caso, os objetos da sua mesa de trabalho.

Mude o canal da TV, sente-se onde não está habituado quando for ao cinema, ao teatro ou à igreja. Mude as marcas de produtos que costuma utilizar, pelo menos para experimentar algo diferente. Não passe a vida toda com o mesmo corte de cabelo nem comprando sempre na mesma loja ou comendo sempre no mesmo restaurante.

Converse com pessoas diferentes. Ouça opiniões diversas. Treine a capacidade de raciocinar baseado no que o outro diz. Na época da graduação, fazíamos sempre o exercício de nos dividirmos em dois grupos e cada um defenderia então uma opinião inversa sobre um assunto polêmico, como o aborto, por exemplo. Em um segundo momento, quando estávamos firmes, cada grupo, em seus argumentos, o professor nos pedia para mudarmos de posição de modo que, quem outrora defendia agora se posicionaria contra, encontrando novos argumentos. Isso fazia com que vivenciássemos forçar o nosso cérebro, imediatamente a mudar todo o raciocínio, mesmo sem concordar. Independente da nossa coerência interna, das nossas crenças e convicções, sair da “zona cerebral” de conforto mantém nosso cérebro em forma. Ele precisa de treino, como também precisam os nossos músculos. Acredita-se que após os trinta anos, iniciemos uma perda natural de massa muscular e por isso nos exercitamos. O auge do nosso cérebro se dá nessa mesma faixa etária, sendo assim, o exercício do organismo deve ser global.

Utilizamos menos de vinte por cento da nossa capacidade cerebral, ou seja, nunca é tarde para começar a mudar.

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Viviane Battistella
Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano. Escritora. Apaixonada por gente. Amante da música e da literatura...



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