“Eu sou amor da cabeça aos pés”

Já diziam Os Novos Baianos acertadamente: pela lei dos encontros, eu deixo e recebo um tanto!

Absorve isso em sua grandeza, rapaz!

A consequência da tal lei dos encontros, do deixar e receber um tanto, é que nos conectemos uns aos outros, formemos laços fortes o suficiente para nos fazer transbordar dor e alegria dependendo do momento. Esta é a dádiva e o fardo que carrega o ser humano. Carrega contigo este dom e este peso, menino!

Não deixa que as armaduras que o mundo te oferece vistam tua alma e matem o jardim lindo que a habita! Se deixe tocar, se deixe sentir, se deixe se conectar com o outro, se deixe viver. Cada um só poderá conhecer a dor e a delícia de ser o que é – a lá Caetano – quando se deixar levar pela lei dos encontros.

Esses dias transbordei paz, transbordei alegria.

Senti uma gratidão imensa, imensurável por sentir.

Senti o mar e as gotas que dele respingavam em meu rosto. Senti e observei o amigo que brincava com as ondas. Que por elas era levado, que caia e mesmo caído, se divertia, sorria. Era terno, era autêntico e real o que eu sentia. Todas as minhas armaduras tinham sido postas de lado.

O vento batia leve em meu rosto e em meu coração o medo não fazia morada. A preocupação parecia estar em outra praia qualquer. Não naquela onde eu estava. É isso que nos é eterno afinal.

Sentia e soube que a vida é sobre isso.

Sobre esses pequenos fragmentos em que o coração aquece, a gente se sente parte do cenário, a gente ama de graça, a gente vê a beleza de nosso laço com o outro, a gente olha ao redor e sente essa gratidão que nos deixa leves. Eu estava totalmente desarmada, e por assim estar, senti.

Pois é, rapaz, esse dias eu fui amor, amor da cabeça aos pés. Tu tens noção da raridade deste tipo de vivência? Cada átomo que forma meu corpo era amor, menino. Parece loucura não, é? Talvez até seja mesmo. E daí se for?

Olho para trás agora, repito aquelas cenas tão singelas em minha mente e lembro-me que a lei dos encontros tem também suas consequências dolorosas e quando estas chegarem, talvez eu me arrependa um tanto por leva-la – a lei dos encontros – tão ao pé da letra.

Sinto que quando a dor me tomar me tomará também por inteira, me ocupará da cabeça aos pés. A letra d’Os Novos Baianos esquece-se disso, moço, mas esse detalhe precisa ser lembrado. Aqueles que são amor por inteiro, também podem, de repente, pela dor ser preenchidos, então cuidado. Prepara-te, porque dançar a vida assim, de corpo e alma também é doloroso.

Por hora, sigo me dizendo que depois que sentir essa tal dor, serei capaz de me refazer, me reinventar e mostrar que apesar de tudo, depois de tudo, tudo estar virado, a menina ainda seguirá sabendo dançar. Nas palavras dos Novos Baianos novamente, dentro da menina, a menina seguirá dançando, rapaz.

* Texto com referências às músicas “Mistério do Planeta”, “Dê um rolê”, “A menina dança” dos Novos Baianos e “Dom de Iludir” de Caetano Veloso

Imagem de capa: Zolotarevs/shutterstock

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Mísia Morais

Paraibana (Campinense) estudante de Psicologia que tem a cabeça nas nuvens, pés no chão e um fraco por causas perdidas.


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