Eu não quero abandonar tudo, eu quero abraçar o mundo!

Sabe quando bate aquela canseira enorme, aquele desânimo com o mundo, aquela sensação de que nada vai muito bem: o coração meio capenga, o corpo solitário, a mente bagunçada, o bolso furado, o trabalho instável e a vida cheia de problemas a serem solucionados?

E vem aquele dia em branco e preto, que você sai de casa sem guarda-chuva e chove, a tpm aperta o estômago e o choro, você perde o último ônibus, acaba a bateria do celular, e tudo em volta parece não fazer sentido.

A energia esgotada, e a gente quer sentar na sarjeta, chorar e deixar de segurar a barra de tudo. Como se a vida, desse jeito, pudesse ir para o buraco.

Daí vem uma amiga (ou algum nível escondido de consciência) e diz: vamos fugir daqui, vamos mudar de vida, vamos para um retiro hinduísta, vamos fazer pacto de silêncio, vamos largar o emprego, vamos sair correndo?!

E eu, num lapso de consciência e coragem, digo: quer saber de uma coisa, não! Vou é me dar um banho morno, uma boa noite de sono, um momento para recuperar as forças do corpo e do pensamento. E amanhã vou reformular tudo.

E vou ficar aqui mesmo, vou seguir em frente. Para voltar a mesma rotina, fazer tudo igual, aceitar e acomodar? Não!

Para dar uma guinada de verdade, perder os medos, falar alto o que penso, abrir novas portas onde pareciam só haver paredes. Para personalizar a minha própria vida.

Vou criar meu espaço, vou dizer que está tudo bem até realmente ficar, vou dar risada das merdas todas e vou valorizar as coisas boas. Vou escutar as críticas e pensar que é inveja enrustida, vou fazer plantão perto das energias negativas até que virem amor ou boas piadas. Não vou me assustar com o clima cinza, com as caras feias e com a opinião alheia. Vou ficar surda e cega para o que não agrega nada.

Porque eu não preciso dar um tempo, eu preciso é ir à luta.
Eu não quero férias para a alma, eu quero é resolver os problemas.
Eu não quero ter autopiedade, ficar doente e me arrastar num sem sentido. Eu quero desenhar mandalas no aparentemente impossível.
Eu não estou a fim de doses de reclamação diárias vindas de mim mesma, eu quero é passar de fase!

Eu não preciso de um efeito paliativo, eu preciso é transformar minha realidade em algo que tem a ver comigo. E quem além de mim mesma vai por as mãos na massa para que isso aconteça?

Por isso, me desculpe amiga, mas eu não preciso de um retiro zen budista, eu preciso me enfiar no meio disso tudo e sair duplamente mais viva.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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