Eu gosto de te adivinhar

De que lado da cama você dorme? Quando você chora? O que te faz sorrir? Onde mora sua paz? Qual a parte do seu corpo que mais sente cócegas? Qual é o sonho que mais te visita? Você prefere a noite ou o dia? Areia ou terra? Café ou chá? Cerveja ou vinho? O que você faz num domingo à tarde? Qual é o seu medo que de tão grande fica num cantinho esquecido do seu pensamento? O que te orgulha nesta vida? O que te dá sentido? O que te faz vibrar? O que te faz bocejar? O que te causa revolta? O que você já aprendeu vivendo? O que o sofrimento lhe trouxe? e a ternura? e a alegria? Quem é a pessoa que te habita quando fica sozinho? E a pessoa social? Você é sociável? Gosta de crianças? E de bichos? Gosta de cachoeira? e de mar? Gosta de cidade grande? E de viajar? Gosta do silêncio? E de falar? Tem um amuleto? Tem um orixá? Tem o corpo fechado? Tem o coração pronto para amar? Nasceu há quantos anos? Em que dia? Qual é o seu signo? E o ascendente? Acredita em vidente? E em Deus? É ateu? Agnóstico? Budista? Filósofo? Humanista? Tem fé em que? O que te faz sentir? O que te faz partir? E querer ficar? Em que se pautam as suas escolhas na vida? Você luta? Ou deixar estar? Como você dorme? se esparrama na cama ou se comprime? Nu ou vestido? Acompanhado ou sozinho? O que faz seus olhos brilharem? Qual é o caminho do seu coração? É pelo estômago? É pelo sorriso? É pela magia de uma história sem sentido? Qual é o seu tipo de sangue? Com qual mão você escreve? Prefere papel e caneta ou teclado? Gosta de tecnologia? De bicicleta? Qual música te desperta? E que te faz cantar? Você canta? Você fala? Você sorri? Você existe mesmo? Não foi uma alucinação? Você acredita em destino? E em acasos? E em milagres? Confia na vida? Ou no livre arbítrio? Você é real? Ou foi inventado?

Shh, não responda…. Eu não me importo muito com tudo isso, por enquanto só me interessa sentir o encaixe do seu abraço, respirar o conforto de sua companhia, encontrar um brilho familiar no seu olhar. Por enquanto não me interessa saber qual é o número do seu sapato, se você me deixar seguir seus passos numa tarde dessas feita para se perder, não precisa me dizer qual é o seu signo, seu time, seu tipo sanguíneo, mas eu gostaria de conhecer mais de perto a textura de sua pele e sentir o timbre de sua voz quando chega assim perto do ouvido. E quem sabe, averiguar com cuidado a palma da sua mão, para ver se eu caberia bem nela. Não quero saber da sua história de vida, dos seus planos para o futuro, dos seus caminhos, mas ficaria feliz de ouvir você narrar o seu sonho da noite passada, me falar do seu doce predileto e descrever um dia da sua infância.
Não quero te traçar, quero te sentir. Quero te intuir.
Eu gosto de adivinhar. Eu gosto desse conhecimento pré-conhecimento. Do olhar inaugural.

Meus sentidos entendem mais que a minha razão. Te reconheço pelos dedos, te encontro pelo cheiro. Pelo beijo te desenho um corpo de amor. No descompasso da respiração, na paralisação do tempo. Quero experimentar as cores desse dia desconhecido. E me encontrar de repente perdida em seus vales.

E então, só então, perceber, quase sem querer, de que lado da cama você dorme.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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