Esqueça o príncipe encantado, fuja com o lobo mau

Certa vez um amigo me perguntou se eu concordava com essa história de que as mulheres preferem o lobo mau ao bom moço. Não respondi. Ou melhor, respondi sim, apenas com um sorriso meio cínico. É que a verdade eu não sei, eu me furto de pensar sobre isso, mas depois resolvi gastar um tempo e umas doses de uísque pensando no assunto e cheguei às seguintes conclusões.

Da mesma maneira forma que “quem nasceu pra lagartixa nunca vai ser crocodilo”, quem nasceu pra príncipe Disney nunca vai ser lobo mau. Não tem a ver com DNA. Tem a ver com atitude e postura, pequeno gafanhoto. De maneira semelhante, homens e mulheres sentem-se atraídos pelo perigo, é da nossa natureza – quer perigo afetivo maior do que dormir na mesma cama que um lobo ou uma loba? Eu, sinceramente, não consigo imaginar.

Em primeira instância, nossas relações são movidas pelo desejo. Negar isso é como negar que a Terra é redonda, ou que o jazz é a maior invenção americana de todos os tempos até o momento, ou ainda, e mais grave, que o Ferroviários é o melhor time de futebol em atividade. Pura blasfêmia.

Não conheço viva alma que não se interesse primeiro pelo que pode acontecer na cama pra, só então, pensar no futuro, tipo casa, filhos, cachorro e todas essas coisas que só quem acredita em felicidade conjugal pensa. Buscamos movimento, ficar em movimento sempre e, convenhamos, andar pra cima e pra baixo num cavalo branco financiado por papai pode até ser legal, mas poder uivar pra lua tomado por um instinto selvagem é bem mais.

Ei, você aí. É, você mesmo que nesse momento está me achando um ogro. Vem cá, me responde uma coisa. Você nunca flertou com o proibido? Nunca se interessou por quem não devia? Nunca pensou por um momento sequer em como seria bom experimentar daquilo que não pode? Pra você que respondeu que não, aposto duas garrafas de Sailor Jerry que está mentindo descaradamente só pra impressionar alguém com quem quer desesperadamente trepar.

Ronaldo Bôscoli, lobo por excelência, sintetiza bem o que estou querendo dizer nos seguintes versos: “Talvez a mulher do próximo/Cismada com meu mistério/Com meu sapato, meu drama/Ou simplesmente adultério”. Coisa de gente de verdade, feita de carne e osso, constato.

Se há uma coisa que a clássica fábula nos ensina é que o lobo mau é o único que vai realmente prestar atenção em você, já que é ele quem te vê melhor, te escuta melhor, te cheira melhor e ainda por cima te come melhor.

Não devemos nos enganar. Somos facilmente impressionáveis e qualquer coisa que nos cause um pouco de medo ou espanto nos fascina. Afinal, é mais fácil ter medo de alguém que usa colán, com cabelo super bem penteado e lavado três vezes ao dia com shampoo de babosa havaiana ou de algo com garras, presas e de temperamento indefinido?

Às minhas companheiras de lua e mesa, fica também o aviso para que tomem cuidado pra não se deixarem enganar, pois há muito carneirinho em pele de lobo por ai. Gente que na rua rosna, uiva e sai mijando em tudo quanto é poste, mas que na cama faz “miau”.

No fundo, todo mundo procura um lobo mau pra chamar de seu.

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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.



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