Entre a arrogância e a simplicidade

Hoje, apesar de ter sido de forma amorosa, senti profunda tristeza ao ouvir que era uma pessoa simples demais. Quem me fazia esta afirmação agia de forma construtiva. Mas ela não tinha ideia do preço e do tempo que haviam me custado a tal simplicidade.

Por muitos anos, ouvi, de pessoas queridas, que era uma pessoa arrogante. Com o passar dos anos e a maturidade que adquiri, eu mesma entendi que agia assim. Buscando a aceitação daquelas pessoas, eu tentava me destacar, mostrando o quanto era boa no trabalho, nos meus estudos, e o quanto era querida pelas pessoas ao meu meio. O alto preço que se paga em busca da aceitação no lugar errado.

Mas rejeição não é fácil. Há muito discurso bonito e centenas de “autoajuda”, mas, na prática, o negócio é bem mais embaixo e machuca. Eu levei anos para entender algumas pessoas importantes em minha vida. Percebi que eu mesma não era compreendida. Enquanto buscava compreensão das demais, mais me afastava do que deveria compreender primeiro: a mim mesma.

Dentre tantas coisas que aprendi na vida, uma, muito importante, é que definitivamente não dá para agradar a todos.

Se se é gordo, incomoda. Se se é bonito, incomoda. Se não se faz, incomoda. Se se sonha, incomoda também. Sempre havemos de incomodar alguém, de alguma forma, mas em todo momento.

Ser fraco incomoda os fortes. Ser forte incomoda os fracos. Ser feio incomoda os bonitos. E ser bonito incomoda os feios. E, se for mais ou menos, há de perturbar alguém também.

Não bastassem os preconceitos mais tradicionais da humanidade, como racismo, xenofobia, homofobia e fanatismo religioso, o ser humano parece não se cansar da implicância alheia: o “bombado”, a “loira burra”, o “mauricinho”, o “coxinha”, o “cdf”, e por aí vai. Se é virgem é problemática; se já teve relação sexual, é “biscate”.

Não há falta de criatividade e fim para a intolerância da sociedade. Quanto mais nos diferenciamos, mais distinções nós criamos para falarmos mal um do outro ou para o exercício da rejeição.

E rejeição dói, sim, não é fácil de ser superada, ainda mais quando ela se encontra entre os que amamos e naqueles em que mais buscamos o amor e a compreensão.

Numa vida onde todos nós desejamos o amor incondicional, sofremos a contrariedade do apontar o dedo constantemente àqueles que se diferem, nos mínimos e mais insignificantes detalhes.

Não há solução imediata para uma sociedade tão enferma no quesito tolerância e amor ao próximo. O tempo e a evolução talvez tragam, daqui a milhares de anos, o amor de que absolutamente todos nós precisamos.

Até lá, fica a lição do amor próprio e o respeito por si mesmo. O saber que agradar ao outro não vale mais do que agradar a si mesmo. E que esperar o aceitar da sociedade pelo que se é, sem mudar uma única vírgula, é o mesmo que aceitar a todo o resto, sem qualquer julgamento.

Quem de nós nunca olhou para o outro sem julgar absolutamente nada?

Somos bonitos e somos feios, todos burros e inteligentes, na simplicidade e fragilidade do humano, e, ao mesmo tempo, na complexa e arrogante convivência de uns com os outros.

Que a vida nos ensine o caminho onde, um dia, iremos parar com tantos conceitos e adjetivos, para então exercer uma coisa só: o verdadeiro e incondicional amor ao próximo.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br

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