Educação na medida

Por Carolina Vila Nova

Durante tempos, lamentei a dureza de meu pai. Com toda sua integridade e inteligência, ele sempre foi ríspido no seu jeito de ser. Histórias à parte, a dura convivência, nos momentos difíceis, acabou criando, em mim, forte vontade de me tornar diferente.

Muitos anos depois, percebi que era muito parecida com aquele senhor, de quem eu guardava algumas mágoas. E, aos poucos, fui entendendo que, no fundo, ninguém é totalmente responsável por suas próprias atitudes. Somos, sempre, em grande parte, o resultado do que fizeram de nós. Somos profundamente o que nossa família é, independentemente de gostarmos disso. Somos um pouco dos nossos amigos, dos nossos professores, dos nossos ídolos, dos amores vividos. Somos resultado do meio em que vivemos, das dores experimentadas, das histórias únicas que cada um escreve para si mesmo, ao mesmo tempo em que nenhum de nós é totalmente dono desses enredos.

Hoje, percebo que agi diferente de meu pai na criação de meu filho. Tentei fazer diferente, para não ver, em meu filho, as mesmas mágoas que eu havia tido. Porém, meu filho leva outras mágoas a meu respeito. Interessante foi perceber, na minha própria trajetória, de forma tão intensa e profunda, a afirmação de que “cada um é cada um”. O melhor que, às vezes, alguém tem para dar pode não ser o bastante para outro. E o que é ruim para um pode ser considerado bom para outrem.

O que quero realmente dizer é que, tentando acertar, eu ou meu pai também cometemos erros. Pode ser até que, se eu tivesse agido exatamente igual ao meu pai com meu filho, talvez tivesse acertado mais. Porque o que meu pai fez para mim surtiu efeitos positivos e negativos, do meu ponto de vista. E é possível que, para meu filho, esses pontos pudessem ser enxergados e sentidos de outra maneira.

Cada um de nós conclui que foi educado de uma forma, aprende o que pode e, futuramente, reaplica aquilo que achou positivo. No entanto, a próxima pessoa a receber a nova educação terá outro ponto de vista. Somos seres únicos, todos em meio a um redemoinho. E, dentro dele, não temos visibilidade para entender o que está acontecendo em tempo real. Sempre precisamos de tempo para processar os acontecimentos e finalmente concluir o que foi bom e o que não foi.

Fato é que, dia após dia, tanto eu, quanto meu pai ou o meu filho, continuamos sendo educados pela vida. No fundo, ninguém sabe o que é melhor no momento real. Seguimos nossas ideias e sentimentos buscando dar o melhor daquilo que somos. E não há receita alguma da perfeita educação. E nenhum ser humano nasce com manual de instrução.

Como mãe, percebo que cometi erros, assim como filha, vejo que meus pais tiveram seus erros. Mas aprendi, com a maturidade, a perceber que os erros dos outros também me tornaram mais forte.

Entre tantas dúvidas que nos acometem a vida inteira, fica o amor e o respeito por aqueles que nos deram a vida. A esperança de estarmos fazendo melhor do que aquilo que nos foi ensinado. Numa cadeia de erros e acertos que nunca cessa, todos aprendem ao mesmo tempo, num ir e vir, nascer e morrer sem fim.

E, no final das contas, percebemos que educação na medida simplesmente não existe. E que amar, perdoar e seguir em frente é o melhor ponto de vista para se olhar para trás e para  a frente!

EDUCAÇÃO

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br


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