E se eu falhar?

Imagem: Stock-Asso/shutterstock

Todos temos medo de falhar, porque sabemos que, um dia, falharemos.

Sempre se soube que o ser humano é falho e que, até o melhor dos melhores, pode deixar a desejar em suas atitudes e em seu desempenho.

Aceitamos melhor as falhas dos outros do que as nossas. O que tememos não é a falha, mas a natureza da falha.

Não nos importamos de falhar com qualquer coisa, nos importamos de falhar com aquilo que é importante para nós: situações, contingências, pessoas, desempenhos afetivos e profissionais.

O medo de falhar muda, conforme o tempo passa. Comecei tendo medo de falhar numa apresentação pública.

Eu tinha 7 anos, era recém alfabetizada, e a professora se encantou comigo, porque numa segunda feira cheguei à escola, declamando uma poesia, como papagaio de pirata, sem entender nem mesmo o significado das palavras.

Sempre tive facilidade para o decoreba, e gastei o domingo decorando o poema para impressionar a professora, mas levei um susto quando ela me disse: “você vai declamar na festa de encerramento de ano” que aconteceria no outro final de semana.

Uma coisa era declamar para a professora, outra coisa era enfrentar os alunos e pais da escola.

– E seu eu falhar? E se esquecer a poesia? E se a minha voz não sair? E se eu gaguejar? E se os outros rirem de mim? E se a professora se decepcionar comigo?

Nessa idade, o medo de falhar nunca é puro, intrínseco e subjetivo, é sempre o medo do outro. Do julgamento do outro. Da reação do outro. Do “bullying” que vem do outro.

Não deu outra: o medo atrai o objeto temido na mesma proporção e intensidade com que o tememos.

Quando me fizeram subir na cadeira improvisada como palco, declamei até a segunda estrofe, e dali para frente deu-me um branco. Desci chorando, e subi a rua em desabalada carreira, a mãe atrás, tentando me alcançar e acalmar.

Até hoje temo que me ocorra algo parecido. Dentro de mim ficou a marca: “boa para escrever e decorar, mas não para falar.”

Na adolescência, o medo de falhar continua fundamentado no medo do outro, na avaliação implacável do grupo social a que pertencemos. É o medo de perder a identidade conquistada a duras penas.

– E se eu falhar? E se o meu melhor amigo se decepcionar? E se a turma zoar? E se a namorada me descartar? E se todo mundo me julgar um frouxo? E se ninguém mais me convidar?

Quando somos adultos conservamos todos esses medos, de maneira modulada, mas o medo mais forte já não está mais relacionado ao medo do outro, ao medo do grupo social a que pertencemos, mas ao medo que tem origem na severidade do nosso próprio julgamento. É o medo do nosso medo.

Temos medo de falhar em nossos papéis afetivos primordiais, com os nossos familiares, e as pessoas que amamos, e sobretudo, temos medo de falhar com Deus.

Ocorre-nos ter medo do julgamento íntimo que enfrentaremos quando sós diante do espelho, ou na hora de dormir, com a cabeça no travesseiro. Ou pior ainda: na hora da morte, diante da solidão mais pura e essencial.

Esse é o pior medo porque o medo dos outros, o provável ou improvável desapontamento que causarmos ao grupo social, passa pelo teste do tempo, e seus efeitos dificilmente sobrevivem. Eles se diluem com o passar dos anos.

Ninguém se lembrará das nossas falhas, do nosso mau desempenho, daqui a dez, vinte anos, mas o desapontamento que causarmos a nós mesmos, esse fica dentro de nós, como marca que nunca se apaga.

Alguém se lembrará de que, naquele tempo, falhei na minha primeira apresentação pública? Ninguém! Mas eu me lembro, e o fato de me lembrar, faz com que eu me limite com essa lembrança.

De forma que precisamos temer mais o medo de nós, o medo das nossas exigências, do que o medo dos outros. Freqüentemente somos mais rigorosos com as nossas falhas, do que as pessoas seriam.

E mais frequentemente ainda, pensamos que Deus não nos perdoará pelas falhas que cometemos e pelas falhas que viermos a cometer. Será verdade? De jeito nenhum!

A nossa vil humanidade é totalmente sujeita a falhas e se até nós sabemos disso, e perdoamos, e esquecemos as falhas dos outros, maior é Deus, mais bondoso, e mais misericordioso do que todos, para nos perdoar.

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Ana Maria Ribas Bernardelli

Estudante de humanas-idades, cidadã do céu e da terra, escritora por compulsão, leitora de letras, de pontos, de reticências, e de linhas, interventora de paisagens, solitária por opção, gregária por necessidade, gosto de músicas, filmes em que só as pessoas acontecem, documentários, biografias, e todas as obras de Clarice Lispector e de Watchman Nee. Vivo a espiritualidade, sem religião. Não tenho afinidades com rituais e com scripts que se repetem. Amo a liberdade, os animais, as plantas, os velhos, as crianças, e todos os seres que se sentem estranhos no ninho. Fujo de superficialidaes, e não tolero nenhum tipo de injustiça, crueldade, ou tirania. Adoro a Deus e a ele quero servir. Escrevo para organizar a vida, para aguentar o tranco, e em cada texto meu, você me encontrará. Espero que eu também lhe encontre no meu email, no meu site, e nos meus endereços nas redes sociais. Feliz por estar com vocês!


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