É importante não embrutecer o coração em tempos de desapego

Eu sei que o mundo tem andado pelo avesso e que o desapego nunca esteve tão na moda. As relações estão cada vez mais efêmeras e desinteressantes. Mas é importante, e muito, não embrutecer o coração nesses tempos onde o mais foi trocado pelo tanto faz.

O duro é que esquecemos de como gostar da companhia de alguém. São tantas oportunidades de conhecer outras pessoas que, vez ou outra, passamos do ponto de ligar ou se importar com quem quer que seja. Parece existir uma predileção pela tortura do outro. Em vez de assumirmos uma postura sincera e dizermos o quanto antes que aquela não nos atrai densamente, optamos por essa manipulação esquisita, deixando alguém no famoso “stand by” enquanto resolvemos nos aventurar em diferentes metades. É algo muito estranho a ser feito, mas que parece fazer sucesso entre alguns.

Só que ao destratarmos o afeto de alguém, não percebemos os entristecedores males causados naquele coração em questão. É daí que surgem os descasos, destemperos e incredibilidades no tal do amor. Coitado, vira e mexe ele é lançado nesse redomoinho de expectativas superestimadas e mal conduzidas. Mas me recuso a acreditar que o amor possa terminar assim, surrado e nas mãos dessa gente que idolatra o constante viver de mutos pares e poucos ímpares. Somos livres para descansarmos nos sentimentos alheios, não importa o momento. Ainda assim, não custa nada nutrirmos uma dose de responsabilidade afetiva para com quem não encontramos tantos motivos para continuarmos.

Depois não adianta reclamar do mundo, das pessoas que aqui vivem e nas formas das quais elas reproduzem o amor. A culpa não é dele e sim nossa. Quando o complicamos, quando queremos forçá-lo a tomar caminhos egoístas, simplórios e separados. Nesse processo, é essencial para o coração manter-se aquecido. Torná-lo bruto em tempos de desapego não é benéfico para ninguém. Quem não quer estar, que parta. Mas se for pedir um lugar aqui dentro do peito, que venha trazendo ternura e reais intenções de soma.

Imagem de capa: Song to Song (2017) – Dir. Terrence Malick

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Guilherme Moreira Jr.
"Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro"

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