É bom se decepcionar

Por Gustl RosenKranz

Sobre a decepção, a dor que ela causa e seu efeito libertador.

Infelizmente, nós seres humanos temos a tendência de empregar termos sem realmente refletir sobre seu significado. E é assim que damos uma conotação positiva ou negativa a determinadas palavras, sem que verifiquemos se essa conotação é adequada ou não. O problema é que palavras nunca são inofensivas, já que as que usamos e escutamos influenciam nossa forma de agir, de pensar e de ver o mundo à nossa volta. Nosso estado de espírito e nossa postura em relação à vida influenciam nosso vocabulário, mas a recíproca é verdadeira: o uso de um vocabulário carregado de palavras “negativas” gera normalmente, mesmo que não se perceba, uma postura igualmente negativa em relação à vida. Vários estudos1 sobre o cérebro humano constataram que não somente nossa cabeça influencia nossas atitudes, mas também que nossas atitudes influenciam nossa mente. E isso vale igualmente para as palavras que usamos e torna importantíssimo escolher e empregar conscientemente as palavras que falamos ou escrevemos e filtrar com atenção as palavras que escutamos. Temos que ter cuidado especial porque temos também a tendência de confundir o que é agradável com bom e o que é desagradável com ruim, o que é um equívoco claro. O parto de uma criança, por exemplo, pode ser umaexperiência desagradável para a mãe, já que é não raramente acompanhada de dor e muito esforço físico e psíquico. Todavia somos unânimes de que o nascimento de uma criança é uma coisa boa. Bom, nesse exemplo é facilmente perceptível que o desagradável não tem que ser necessariamente ruim, mas isso nem sempre é fácil de se reconhecer em inúmeras situações cotidianas, fazendo com que alimentemos diariamente essa confusão terminológica, trocando as bolas e atribuindo uma conotação negativa a algo bom só por ser desagradável, como é o caso da DECEPÇÃO.

 

É natural que fiquemos tristes, frustrados, desapontados ou até irados quando somos decepcionados… Sofrer uma decepção é uma experiência desagradável, às vezes até extremamente dolorosa, principalmente quando nos decepcionamos com alguém próximo, com quem temos uma relação mais estreita. Mas a decepção é uma coisa ruim? Não, não é. Pelo contrário: decepcionar-se é uma coisa boa, importante para o amadurecimento humano, já que se decepcionar significa perder a ilusão em relação alguém ou alguma coisa, quando algo inesperado destrói nossas expectativas. A palavra “DECEPÇÃO” vem do latim deceptio, que significa engano ou dolo. Ou seja, quando decepcionamos alguém, o enganamos, quando nos decepcionamos, fomos enganados ou enganamos a nós mesmos. Agora responda: não é bom se livrar de um engano, de uma ilusão, de uma farsa, de algo que achávamos que era de uma forma, mas que na verdade sempre foi diferente?

A intensidade de uma decepção depende de dois fatores: do tamanho das expectativas e do tempo que durou o engano, a ilusão. Portanto, quanto menos se espera e quanto menos demorar o engano, menor o sofrimento. E vale o contrário: se você não aprender a domar suas expectativas, deixando-as crescer cada vez mais, você só alimentará a ilusão, prolongando-a e aumentando o sofrimento na hora que você perceber que estava sendo enganado (talvez por você mesmo?).

Imagine, por exemplo, você indo para uma festa. É claro que você espera que a festa seja boa, senão você nem iria. Se a festa no final não for lá essas coisas, talvez você fique um pouco decepcionado. Mas se você for além disso, indo à festa com a expectativa de que será a melhor festa de toda sua vida, talvez a melhor festa do mundo, a decepção aqui pré-programada será bem maior, já que o tamanho da decepção está diretamente ligado ao tanto que você espera.

Uma pessoa decepcionada reage de acordo com o princípio “fui enganada!”, mas normalmente a “culpa” nem é (somente) do outro. Nós é que insistimos em ver algo como queremos ver, criando nossa própria realidade de forma conveniente para nós. Um bom exemplo é quando nos apaixonamos e vemos tudo de forma colorida, sem questionar e sem ver as coisas como são, projetando no outro aquilo que queremos e confundindo a ilusão da paixão com a realidade. Quando a paixão passa e vemos quem o outro é de verdade, ficamos decepcionados e nos sentimos enganados, o que é legítimo e compreensível, mas é importante se perguntar: enganado por quem? Pelo outro ou por nós mesmos? É importante entender que você mesmo é responsável pelas decepções que você vive. É claro que há pessoas dissimuladas, que fingem ser algo que não são, enganando de propósito, mas também aqui vale: essas pessoas só irão lhe enganar se você permitir. Não podemos responsabilizar outras pessoas por nossa ingenuidade e nossas falsas expectativas.

Creio que uma decepção nunca vem de surpresa. Ela vai se manifestando já com antecedência, os sinais são claros, mas nós, por preferimos sempre o caminho mais fácil e evitarmos quase patologicamente o que é desagradável, ignoramos esses sinais, alimentando a ilusão e aumentando a altura do tombo na hora da percepção da realidade como ela é. Uma pessoa não decepciona uma outra da noite para o dia. Normalmente seu comportamento já mostra cedo que ela não é bem assim como acreditamos, mas nós nos negamos a reconhecer isso, pois é bem mais confortável crer que as coisas são como nós gostaríamos que fossem. E é assim com aquele “bom” amigo ou aquela “boa” amiga, que de repente nos mostra que a amizade não era tão forte assim, ou pior ainda: que falta profundamente com o respeito, que nos machuca, que nos faz sofrer, que nos decepciona… Como estávamos iludidos e aparentemente felizes e satisfeitos com essa ilusão, acreditamos que o comportamento questionável dessa pessoa veio de repente e que a amizade acabou de uma hora para outra, mas isso não é correto, já que ninguém muda seu comportamento ou sua postura da noite para o dia e uma amizade que termina de uma hora para outra na verdade nunca existiu.

Antigamente, eu sofria quando alguém me decepcionava (= não correspondia às minhas expectativas, não agia da forma que eu esperava), até que um dia percebi o equívoco que causava esse sofrimento: a definição errônea de decepção como algo ruim por ser desagradável. Desde que sei disso, procuro esperar o mínimo possível das pessoas e dos acontecimentos em minha vida, tento ver as pessoas e as coisas como elas realmente são e procuro não alimentar ilusões. Hoje em dia, quando, por exemplo, um amigo me decepciona fortemente, tenho consciência de que isso apenas ocorreu devido às minhas expectativas altas (repetindo: quanto mais altas as expectativas, maior a decepção!) e porque não vi a coisa como realmente era. Fico feliz de ter percebido o engano (quanto mais cedo melhor!) e procuro corrigir a minha visão, me libertando de uma ilusão que, no fundo, não me fazia bem. Cresço com isso, procurando não guardar mágoas, já que no fundo sou grato por ter tido a chance de perceber que a realidade era bem diferente daquilo que eu acreditava ou queria acreditar, tendo consciência de ser eu mesmo responsável pelas minhas expectativas. Isso liberta, isso purifica as relações e isso é uma coisa boa!

Portanto, sempre que você sofrer uma decepção, permita-se sentir dor e tristeza, aceite a frustração, mas não deixe de ver o outro lado da moeda: o lado da desilusão, do desencantamento, do fim do engano, da retomada da realidade. A sobriedade disso resultante, por mais desagradável que seja, irá lhe fazer crescer, irá lhe libertar de devaneios, de enganos dos sentidos ou da mente e lhe permitirá compreender que a realidade, mesmo que amarga, é sempre melhor que qualquer doce ilusão.

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Gustl Rosenkranz
Como já diz o nome de meu blog, escrevo fazendo uso de uma das liberdades mais essenciais que temos: a liberdade de pensar. Escrevo sobre o que passa por minha cabeça, sobre coisas que vejo, escuto e vivencio diariamente, enfim, escrevo sobre a vida e suas facetas, sobre o mundo e suas entranhas e sobre o ser humano, com seus sonhos, medos e esperanças. Escrevo sem “luvas”, tocando no assunto, menos preocupado em agradar do que em mexer com o leitor, de forma clara, até mesmo carinhosa, mas sempre suavemente subversiva e profunda.



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