Dos pequenos grandes apegos do cotidiano

Por Adna Rabelo

Revisão Elaine Canisela

Uma amiga muito querida me contou hoje que estava triste, pois alguém que ela ama perdeu a filha de uma maneira muito inusitada. Sem saber de mais detalhes, disse apenas que a menina, de então 10 anos, havia aspirado um alfinete. Enquanto eu ouvia a história, fiquei perplexa, e pensei: “Como alguém pode morrer assim?”. Ficamos ali, alguns instantes, imaginando como isso poderia ter ocorrido. Em um dado momento, concordamos que, apesar de termos dominado tecnologias sofisticadas, desde drones até vacinas poderosas, somos muitos frágeis diante da vida.

Tudo isso nos fez refletir sobre como nos apegamos à ideia de quem somos. Sabe aquela máxima de que temos um “eu” a zelar? “O que as pessoas vão pensar?” é uma desculpa frequente que nos damos quando não ousamos desabitar nossos péssimos hábitos. Às vezes, porém, podemos ir ao outro extremo: “Não me importo com ninguém! Preciso estar em primeiro lugar.” – o que também não deixa de ser um tipo de apego àquilo que acreditamos ser. Mas, afinal, o que somos?

Lamento dizer, mas não será neste texto que teremos finalmente a resposta para essa pergunta tão intrigante. Entretanto, me permito dizer algumas coisinhas. Nós somos o efêmero da efemeridade, se é que isso é possível. Aquilo que somos é constituído por alguns bilhões de células, de todos os tipos e funcionalidades. Apesar de muitas vezes parecer que somos grandes, autossuficientes, somos extremamente pequenos, frágeis. Chegamos à existência com tamanha imaturidade que, por isso mesmo, quase tudo aquilo que “temos” devemos àqueles que cuidaram ou (des)cuidaram de nós. Aqui me refiro desde ao Estado, às instituições até ao mais maternal dos cuidados. A partir deles, fomos criando nossa síntese, a qual por vezes chamamos de identidade. E é em nome dela que muitas vezes construímos coisas maravilhosas ou que cometemos grandes atrocidades – inclusive aquelas que impingimos a nós mesmos.

Por falar em atrocidades, voltemos então aos hábitos que teimamos em não desabitar – o orgulho que nos prende a alma, a intolerância que nos apequena, o ódio que nos cega, o desamor que nos murcha o espírito, só para citar alguns. Quando nos perguntamos: “Por que estou agindo dessa maneira?”, não é raro que a resposta de um lugar secreto da nossa identidade seja: “Porque você é assim!”. Gosto de imaginar esse lugar como uma espécie de suprema corte. Numa fração de segundos, nossa mente nos envia uma sequência de imagens carregadas de emoção e de sentidos que nos conforta, pois passamos a “entender” nossas razões. Dessa maneira, parece que vamos validando mais e mais nossos velhos e, muitas vezes, errôneos hábitos. Isso vale para maneiras de pensar, de agir ou até mesmo de sentir.

Também não tenho uma solução para esse impasse identitário, mas daquilo que eu já experienciei e estudei, entendo que precisamos desenvolver um espaço “limpo” dentro de nós, que nos permita processar as situações com “lentes novas”, permitindo que os sentidos nos auxiliem na construção de soluções antes impensadas, as quais também sejam capazes de nos possibilitar um novo diálogo interno. E, não menos importante, que ponha aquilo que não tem relevância exatamente onde deveria estar: num pequeno espaço, o suficiente para ser apenas registrado. Nada além disso.

COMPARTILHE
Adna Rabelo
Psicóloga clínica, CRP- 05/48233, professora de psicologia e coach. Atualmente também se dedica aos escritos de seu blog Psicóloga Adna Rabelo.



COMENTÁRIOS