Domine a coisa para que a coisa não domine você

“Após a formação do hábito, a mente é controlada e a vida é absorvida. A coisa irá mudar sua vida para sempre” (The Stuff - 1985).

“Após a formação do hábito, a mente é controlada e a vida é absorvida. A coisa irá mudar sua vida para sempre” (The Stuff – 1985).

Hoje a coisa está ativamente presente em nossas vidas, eu diria que na vida de um em cada quatro habitantes da Terra. Ela está em nossas casas, em nossos locais de café, estudos e trabalho e até mesmo nas ruas.

Provavelmente vocês têm contato com a coisa diariamente e nunca pararam para pensar o que ela efetivamente é e em como a coisa mudou a vida de todos vocês assim como o funcionamento do vosso cérebro.

Em um contato inicial ela parece estranha, mas com seu uso freqüente ela começa a se tornar quase obrigatória, e o seu aspecto prazeroso e útil, nos permite tomá-la como parte do nosso cotidiano com facilidade.

Para que possam entender bem do que falo, vou lhes contar sobre a origem da terminologia que estou usando aqui. Em 1985 foi lançado nos EUA um filme intitulado “The Stuff” traduzido para o português como “A Coisa”.

O filme se enquadra na categoria ficção científica e conta a estória de um produto lançado no mercado americano como um tipo de iogurte de baixa caloria que com o tempo mostrou ser muito mais que isso. A princípio inofensivo e saboroso o “The Stuff” começou a ser consumido em larga escala, a qualquer hora. A coisa deixou para traz velhos hábitos alimentícios e se instaurou dominando a vida daqueles que a consumiam.

O filme é bastante nonsense se o assistirmos com os olhos de hoje, contudo reprisado inúmeras e inúmeras vezes nas tardes da década de 80, faz parte do imaginário infantil de muitos de nós.

“Esqueça, você não pode deter isso. A coisa é o produto do futuro” diz um dos personagens em um trecho do filme ao mencionar aquilo que vertia do solo e que parecia de domínio universal.

Passados trinta anos do lançamento do filme, a coisa de hoje pode ser encontrada em seu celular e também na sua tv smart, assim como em seu computador.

Na ficção, em pouca quantidade, o produto poderia até mesmo fazer as pessoas se sentirem menos cansadas e mais felizes, apesar de causar dependência, mas com o aumento de sua utilização ele prejudicava e alterava comportamentos.

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Então para falar dessa nossa coisa eu preciso começar contando que em 1957 o mundo começou a trabalhar a ideia do uso de computadores interligados. A princípio a tecnologia engendrada nisso não era ainda exata e os computadores trabalhavam em uma só tarefa de cada vez. Contudo para o desenvolvimento da comunicação em rede essa idéia de tempo não era eficaz, então surgiu o “tempo compartilhado”, que seria a capacidade do computador de processar inúmeras atividades ao mesmo tempo. Ou seja o tempo do computador passou a ser diferente do nosso.

Assim sendo, o sistema de computadores em rede se desenvolveu progressivamente até que em meados de 1990 estava disponível para o uso das pessoas comuns como nós, em larga escala mundial.

Em 1992 um grupo sem fins lucrativos denominado como “The Internet Society” estabeleceu o protocolo a ser usado pela Internet.

Assim, computadores interligados poderiam seguindo o protocolo compartilhar informações de forma compatível sem problemas a partir de então. A tecnologia, que é a capacidade de aplicar conhecimentos científicos para a resolução de problemas ou busca de soluções, permitiu que a internet surgisse e dessa forma facilitou a troca de conteúdo e informação entre humanos.

Então começamos a comprar computadores e posteriormente, celulares e televisores que pudessem se conectar à internet e nos divertimos com o fato de podermos falar com pessoas de todo o mundo e de podermos buscar informações sobre tudo na rede. Dessa forma, não demorou muito para que usássemos a internet para tudo, até mesmo para fazer mercado.

Em suma nossa vida migrou em grande parte do real para o virtual nesses quase trinta anos. Dessa forma, se eu lhes perguntar se vocês gostam da internet, se ela é saborosa e essencial, vocês me dirão em coro um sonoro “sim”, contudo se eu lhes pedir, após essa minha breve introdução, que me respondam “o que é a internet” certamente a explicação não será tão fácil.

Sim, ela é um conjunto de redes mundiais interligadas, cujo nome “inter” veio do inglês e significa internacional e “net”, também de mesma origem, quer dizer rede e nos possibilita o acesso de informações, troca de dados e mensagens em qualquer lugar do mundo.

Mas efetivamente o que é a internet? Nós em nossa limitada percepção tecnológica conseguimos mensurar a dimensão disso? Conseguimos traçar as proporções dessa rede que está lá, como se fosse de domínio público, e que pode ser acessada de qualquer lugar através de um dispositivo apto?

Talvez seja então importante falar como a internet e os gadgets, ou melhor, as nossas coisas, mudaram a forma de agir de muitos de nós. E para fazer isso vou necessariamente me lembrar das vezes nas quais fui ao banco e o funcionário do caixa, ao mesmo tempo em que me atendia, usava seu aparelho móvel.Também vou me recordar da moça que trabalhava no hipermercado, escondida entre as gôndolas, rindo ao usar seu smartphone ou do médico que em meio a uma explicação acerca da medicação prescrita, parou tudo após um bip de seu celular, voltando desatento à realidade.

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O escritor americano Nicholas Carr foi uma dessas pessoas que também sofreu alterações com a imersão no mundo virtual. Ele reparou que após ter se habituado à internet algo estranho começou a acontecer: ele não conseguia mais se concentrar para ler um livro. Seus olhos pareciam buscar afoitos não mais as letras no papel, mas a tela de algum computador ou celular. “Sentia que estava lutando com meu cérebro para voltar a ler”.

Isso acontece de acordo com Clifford Nass, professor da Universidade de Stanford, porque nosso cérebro se ajustou ao tempo do computador, um tempo no qual muitas atividades são executadas simultaneamente e como isso vai contra a natureza humana, já que temos a capacidade de atenção limitada, acabamos nos tornando mais ansiosos, irritadiços e dispersos.

Estudos indicam que não só o funcionamento do cérebro foi alterado com o uso da internet, mas sua plasticidade também e que em um prazo de cinco dias pessoas que nunca usaram a rede, ao terem contato com ela, passam a ter a atividade cerebral similar às daquelas que nasceram usando a mesma.

Contudo alterações cerebrais são reversíveis e de acordo com o neurocientista português António Damasio alguém que mude seus hábitos devido ao uso da internet pode voltar a ter o cérebro de antes, desde que adote novas posturas. Para isso algumas dicas podem ser importantes:

1-procurem se desconectar sempre que possível; 2- evitem fazer várias tarefas ao mesmo tempo e desliguem os alertas de e-mails e de redes sociais; 3- não deixem que a máquina diga o que vocês devem fazer e quando; 4- treinem sua concentração com atividades como leitura, meditação, desenho, artesanato, pintura, dança, dentre outras; 5-descubram mais sobre seus programas e sites favoritos, isso faz com que vocês deixem de ser usuários passivos e entendam melhor no que estão se envolvendo.

Nesse ponto ainda lhes parece exagerada a comparação da internet com a coisa de um filme nonsense lançado em 1985? Provavelmente não. Ambas partilham muitas similaridades e fazem da nossa essência seu habitat. Hoje somos incapazes de não levantarmos os olhos ao ouvirmos o bip de um gadget, tanto quanto os personagens do filme ao ouvirem a palavra “The Stuff”.

A internet é sim essencial em nosso dia a dia, contudo é preciso que saibamos que o tempo dela é diferente do nosso, que o tempo dela é um tempo não humano, excessivamente acelerado, e que somos nós que devemos buscar por ela e não ela a ditar quando devemos correr ao seu encontro largando o livro que lemos, a comida que fazemos, o trecho preferido do filme, o filho que pede por brincadeiras, a conversa amiga e o nosso parceiro para atender às suas vontades.

Maiores informações:

O filme “The Stuff“– A História da Internet – A Internet e o Cérebro

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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