Do tamanho da paz

Do outro lado de mim.
Fernando Pessoa

Um lindo céu azul e um ventinho suave anunciando dias mais frios… assim é o mês de maio. Em junho, são as noites que nos seduzem com a lua firme lá em cima e nós, aqui embaixo, acendendo fogueiras e levantando mastros nas festas juninas. Só de pensar me emociono!

É a vida. É a beleza estonteante da natureza com toda sua diversidade e riqueza: árvores centenárias entregando sua sombra e suas folhas generosamente, flores rompendo o asfalto, arco-íris cruzando nosso céu.

Presentes acessíveis a todos sem distinção de raça, cor, religião ou posição social. Quando iniciados na arte de viver, somos capazes de “chegar às nuvens” com pequenas porções desses presentes.

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais.

Parece universal esse desejo de ter uma casa no campo, um lugar bem tranquilo, com um gramado verde, muitos vasinhos na janela e na porta escrito ”Aqui mora gente feliz”. Um lugar onde é possível viver a medida certa em relação a tudo; harmonizar o movimento com o descanso e a certeza cristalina do que nos faz bem.

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais.

Ficar no tamanho da paz é sentir-se enraizado, é vibrar na frequência das coisas mais simples, é saber excluir os excessos, despojar-se da ganância e aceitar nossa finitude.
É viver uma liberdade criativa, ter uma postura solene diante da vida e silenciar frente aos seus mistérios…

Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal.

Do tamanho da paz é ouvir os acordes da natureza, é a certeza da providência divina, do apaziguamento dos pensamentos e a capacidade de não quebrar a corrente do que é bom. A casa de campo é a representação simbólica do instinto de artífice – habilidade de plantar e cultivar com nossas mãos as nossas vidas.

Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar
Meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais…

Mas será que ainda conseguimos encontrar o caminho e chegar a essa casa de campo? Será que ainda somos capazes de guiar-nos pelos sinais da natureza viva e não pelos modelos frios das máquinas?

Será que ainda há flores em nossos jardins, será que há jardineiras e árvores frutíferas? Com certeza estamos mais refinados em nossas atitudes e nossos jardins/afetos mais sofisticados, mas… e o encantamento?

Onde estão os canteiros para corrermos, como Cecília Meireles, sentindo o gosto de framboesa; onde está aquela rosa que brigava com o cravo, a camélia que caía do galho, e as rosas que não falam mais? Encontramos poucas borboletas e cigarras e uma frequência bem menor de beija-flores vindo beijar uma florzinha .
Neste mês de maio, em que lembramos nossas mães, quero parir uma nova vida. Quero plantar flores na minha alma, quero fazer de mim uma casa no campo, encantada, quero mãos camponesas fincadas nas amizades.

Quero aprender a lição de Zé Rodrix, Tavito e também de Lenine que nos ensinam

… tudo pede um pouco mais de calma
…tudo pede um pouco mais de alma…
… o mundo espera de nós um pouco mais de paciência
…a vida é tão rara…

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Eliete Cascaldi
Psicóloga , escritora e avó apaixonada pelo seu neto e pela vida. Autora do livro "Varal de sonhos" e feliz demais com os novos horizontes literários que se abrem.



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