Dizer sempre o que o outro quer ouvir é uma forma de desamor

Males do desamor estão escondidos em inadvertência opinativa sobre certos aspectos que realmente importam em um relacionamento genuíno. Agradar nem sempre é se importar.

Algumas vezes temos que ouvir coisas bem desagradáveis das pessoas que amamos, ou então dizer a elas algo que não lhe comprazem. Apesar do desconforto emocional que isso pode causar, dependendo do caso, não é algo de todo ruim. Pior do que ser incomodado pela amargura de palavras moralistas alheias é ser apunhalado pela própria moral quando estas palavras nos fazem sentido no futuro.

Uma pessoa que se importa realmente com a outra não hesita em manifestar objeção ao que está sendo tratado, se achar que é o correto a fazer. A questão aí não é tentar ferir os sentimentos do outro, mas oferecer cenários de risco para que a pessoa faça suas escolhas sem desconsiderar as possíveis consequências.

Poucas pessoas estão preparadas para ser realistas ou lidar com gente realista. Diante de inúmeras adversidades corriqueiras, é muito melhor procurarmos pessoas que nos tranquilizam em momentos de preocupação, e então costumamos rejeitar, não sem algum ressentimento, quem nos orienta através de outras realidades menos convenientes. Muitas verdades que se revelam a alguns são o motivo de outros se alimentarem com mentiras. O realismo não é o melhor conforto, o otimismo é. Mas ser otimista demais torna alguém incauto, resguardado, passível de acreditar na sua invulnerabilidade, sendo, assim, ainda mais vulnerável do que já é por natureza.

Algumas vezes, não conseguimos adotar a sinceridade sem sermos rudes. Nesses casos, há uma diferença entre ser rude por ter sido sincero e mentir para esconder a rudeza. A sinceridade acompanhada de descortesia tende a ser combatida, não agradecida. Quando alguém começa a nos dizer: “Olhe, sinceramente…”, logo imaginamos que essa pessoa irá nos bombardear com palavras espinhosas, mas nem sempre ser sincero remete a dizer coisas mais difíceis de serem aceitas.

Muitos se sentem desrespeitados em ouvir as verdades do outro como se fossem as suas, e então taxam quem as verbalizou de estúpido, arrogante, egoísta, sem noção. Contra esse problema, costumeiramente escolhem omitir o que pensam para reduzir a intensidade do desgosto, quando, na verdade, estão se agredindo indiretamente por conta de não lidarem com seu problema. Sim, abuso verbal é método de violência, mas a omissão verbal também pode ser.

Há de se ter atenção redobrada com aqueles que buscam sempre nos agradar com palavras sutis, agradáveis e acalentadoras, e nunca nos repreendem (mesmo suavemente). Quem se preocupa verdadeiramente com nosso bem-estar reconhece que o valor da nossa felicidade não se estrutura apenas nela mesma. O mimo é uma expressão de amor, e também uma atitude que desacostuma a pessoa à maturidade amorosa. Quanto a isso, cabe os dizeres do filósofo alemão Erich Fromm em seu livro A Arte de Amar:

“O amor infantil segue o princípio: ‘Amo porque sou amado’. O amor amadurecido segue o princípio: ‘Sou amado porque amo’. O amor imaturo diz: ‘Eu amo você porque preciso de você’. O amor maduro diz: ‘Eu preciso de você porque amo você’.”

Em um mundo onde o amadurecimento é visto como forma de opressão, a possibilidade de sermos mimados é atraente demais para que aceitemos os perigos do mimo exagerado. Um desses perigos é que, quando a vida nos desafia a adiar gratificações, a não sermos tão imediatistas, traduzimos isso em sofrimento desnecessário, e então adotamos a posição de vítimas. A inocência é saudável até certo ponto; para além desse limite, torna a pessoa refém das próprias responsabilidades.

Não temos como perceber todas as vezes que erramos, então dependemos de pessoas que nos orientem além de nós. Às vezes, precisamos de humildade para ouvir conselhos dos outros e alterar nosso comportamento; outras vezes, precisamos de proatividade para dar conselhos aos outros e inspirá-los à mudança.

Reconhecer aquilo que a pessoa que amamos gosta de ouvir se torna mais fácil em proporção ao aumento da intimidade desse amor, todavia, usar tal conhecimento afetivo de forma constante e invariável não é um sinal de preocupação com o bem-estar da pessoa, mas uma outra estratégia de manipulação emocional que aponta investimento nos próprios interesses.

Uma boa forma de saber se alguém se importa ou não com nós é observar o seu potencial de criticidade a nosso respeito: se esta pessoa nunca nos critica, então a nós ela é indiferente. Nossas opiniões, se não forem por vezes contestadas ou provocadas, tornam-se frugais, porque somente a crítica faz nascer a reflexão da qual toda boa opinião depende.

Muita gente pensa que o ato de criticar logo remete a falar mal em sentido pejorativo: isso só se aplica no caso de críticas destrutivas. Por outro lado, as críticas construtivas tem conotação positiva, visto que promovem desenvolvimento humano.

A identificação do significado de uma crítica depende muito de como adaptamos o que ouvimos para nossa realidade, e também do nosso relacionamento com o crítico. Sem uma adaptação justa e uma relação desprovida de inveja, ciúmes ou mesquinharia, não temos um real feedback produtivo, apenas impressões precipitadas baseadas em letárgicos duelos de julgamento pessoal.

Toda crítica é escondida em um conselho, que pode vir para o bem ou para o mal. Se todo conselho fosse bom, as pessoas sempre o pediriam.

A qualidade dos conselhos depende muito da habilidade de escolher os conselheiros. Na época da monarquia, por exemplo, várias conspirações foram organizadas por pessoas mais próximas do rei, aquelas que faziam parte da corte especial e participavam ativamente dos processos governamentais. Justamente por terem recebido maiores votos de confiança do rei, esses indivíduos tinham mais chances de verificar os pontos fortes de seu líder para neutralizá-los, e identificar seus pontos fracos para explorá-los. O rei que não sabia selecionar seus conselheiros ficava à mercê deles e, portanto, a autoridade se invertia.

Bem, é sabido que as pessoas têm a mania de usar seu filtro interno para ouvirem apenas o que querem ouvir. Contudo, cedo ou tarde se verão tentadas a ouvir o que não querem, pois ninguém sobrevive – tampouco evolui – só de elogios.

O ideal, quando ouvimos palavras indecorosas de alguém que amamos ou mesmo daqueles que não temos tanta intimidade, não é responder em tom de ofensa, mas, primeiro, discernir se realmente foi uma ofensa. Nem sempre o problemático é a causa do problema que está sendo problematizado. É muito fácil transferir o conteúdo de uma crítica do campo técnico para o campo pessoal. As pessoas estão mais preocupadas com seu orgulho presente do que aprender no agora.

É deveras importante controlar o temperamento ao se dar um conselho, porque a percepção de destemperança por parte da outra pessoa faz com que ela adote uma postura defensiva, e esta, por si só, prejudica na devida assimilação do caso, uma vez que o foco passa a ser a relação pessoal entre os envolvidos e não o caso em si. Assim, no calor da discussão, se rejeita ou ignora conselhos com muita facilidade.

Um conselho dado de maneira inadequada não terá efeito solutivo, mesmo que seja o mais adequado dos conselhos.

Muitos relacionamentos são terminados ou prejudicados porque, por mais de uma vez, uma pessoa pediu ajuda à outra para resolver um assunto para si relevante, mas foi decepcionada em ouvir exatamente aquilo que mais temia. Engraçado como as pessoas primam pela sinceridade, mas não se mostram muito seguras para ouvir opiniões desagradáveis, por mais sinceras que possam ser.

O romancista espanhol Miguel de Cervantes, criador de Dom Quixote, aconselhava o seguinte: “Segui o vosso caminho e não deis conselhos a quem não vos pede”. Mas a grande maioria das opiniões é por nós oferecida sem que o outro peça ou queira ouvi-las, mas mesmo assim desejamos opinar, dada a necessidade iminente de comunicação e expressão e a vontade de utilidade representativa.

Pede-se do outro um dizer necessário, mas, muitas vezes, o que queremos ouvir não é o que precisamos saber. Confunde-se muito querer e precisar. Nós queremos tudo o que precisamos, mas não necessariamente precisamos de tudo que queremos. Assim se dá também com conselhos e opiniões no nosso cotidiano social.

Nós damos mais bons conselhos do que achamos preciso recebê-los. Aconselhar sem dar o exemplo é inútil igual um cristão que peca e condena o herege pelo pecado. Francis Bacon, filósofo inglês, dizia:

“Aquele que dá bons conselhos constrói com uma mão; aquele que dá bons conselhos e exemplo constrói com ambas; o que dá bons conselhos e mau exemplo constrói com uma mão e destrói com a outra.”

O conforto para uma lamentação nos é tão necessário que estamos muito mais inclinados a pedir ajuda àqueles que supomos ser apoiadores carinhosos, como se a privação afetiva fosse causada pela falta de carinho e nada mais. Essas solicitações de consolo em tempos de crise melancólica são quase inevitáveis, no entanto, deveria ser tão costumeira a vontade de ter alguém para ajudar a secar nossas lágrimas como a vontade de entender por que elas surgiram. Sem a compreensão das causas de dor, o sofrimento injustificável é mais penoso e desesperador do que o normal, porque sabemos que sua reincidência não tem precedentes, uma vez que ainda não identificamos a raiz do mal e, portanto, não sabemos como evitá-lo, o que nos torna mais suscetíveis a ele.

Problemas diferentes requerem competências de ação diferentes. Pedir ajuda sempre para a mesma pessoa, independente da situação que se apresenta e do grau de confiança praticado, é equivocado e perigoso, porque não há somente um problema a ser resolvido e nem alguém que possa ter conhecimento de todos os problemas.

As pessoas mais confiáveis e dignas da nossa companhia são aquelas que, primeiro, buscam compreender nossas angústias, para em seguida nos ajudarem a superá-las. Não devemos aceitar tudo sobre quem amamos, mas, para genuinamente amarmos uma pessoa, precisamos nos esforçar para compreender o porquê ela faz o que faz, e esse esforço só é possível se abraçarmos as suas diferenças, inclusive as que não queremos para nós, mas que, querendo ou não, também fazem parte de nós a partir do momento em que amamos.

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Eduardo Ruano
Escritor e redator por hobbie e profissão. Eu me considero uma pessoa racional, analítica, curiosa, imaginativa e em constante transformação. Gosto de ler, escrever, correr, assistir filmes e séries, beber e viajar com os amigos. Estudioso de ciências humanas, arte, psicologia, filosofia, comportamento humano. Odeio burocracias, formalismos e convenções. Amo pessoas excêntricas, autênticas e um pouco loucas, até certo ponto. Estou sempre buscando novas inspirações para transformar ideias em palavras.


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