Desconfio, logo, sofro

Já foi a época que a criatura desconfiada corria para abrir cartas alheias na boca da chaleira, para aplacar seus medos ou confirmar suas desconfianças.

Hoje o martírio de um desconfiado está em outro nível, uma verdadeira caça de tirar o fôlego e a razão. As opções que um desconfiado precisa identificar, formam um jogo perigoso que pode consumir tanto mais tempo quanto maior for a presença do seu alvo nas redes e aplicativos sociais.

Desconfiar de alguém e viver uma constante caça, é sofrer com conclusões de uma lógica única, particular, tendenciosa e pessoal.

Mapear os movimentos de alguém, utilizar o tempo disponível com esse propósito, é dar um tiro no próprio pé, é ferir-se espontaneamente, é se desrespeitarem alto e nocivo grau.

O ouvido na porta, o olho na fresta, a armadilha jogada, a senha roubada, tudo isso revela um alto grau de sofrimento, de detrimento, de enfraquecimento.

Desconfiança não é curiosidade. Desconfiança é muito pior. É buscar desesperadamente estar dentro da vida privada do outro, ser a mosquinha que tudo assiste, ter a fofoca em primeira mão, às vezes o alívio, outras, a decepção.

Desconfiar é meter a mão no formigueiro e culpar o outro pelas feridas da própria decisão.

Se eu desconfio, não confio. Se não confio, não faço revelações, não contabilizo promessas, não faço planos nem sonhos.

Se eu desconfio e não confio e ainda assim eu fico, sofro. Sofro porque preciso provar que estou errada, que minha desconfiança é loucura, que meus instintos me traem, que minha razão falha.

Se provo, depois me culpo.
Se não provo, me decepciono.
E sofro pelas duas razões.

Que eu possa ser livre o suficiente para deixar, livre, dar corda, confiar e ser de confiança!

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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