Deixe Sangrar

Complico, reclamo e deixo doer. Não pretendo me abdicar do meu lado humano para me tornar um não sei o que. Não cegarei meus olhos para dizer que está tudo bem ou melhor, enquanto o mundo está desabando ao meu redor. Muito menos irei sorrir e atuar, quando o mundo estiver desabando dentro de mim. Deixarei a elegância para as passarelas quando minhas emoções pedirem para borrar os olhos. Não é que elas mandem em mim, simplesmente não vejo sentido em negar uma parte da minha existência para atender a um certo imperativo de felicidade ditado não sei por quem nem para quê. Não é que eu queira mergulhar na minha tristeza até me afogar, mas vamos combinar, senti-la faz parte da vida.

Não vou colocar salto alto para fazer alguém pensar que estou por cima, embora também não esteja por baixo – estou por dentro, lá no fundo, descansando dos apuros no covil duro no qual se transformou, neste momento, a minha alma. Também não recusarei minhas lembranças das coisas boas que acabam de partir, muito menos trairei meus sonhos, ou apagarei os acontecimentos fictícios produzidos pela minha imaginação. Ela deve estar tentando resolver o que não compete à razão. Deixe-a assim.

Andarei por aí distraída, me orientando por sinais verdes e vermelhos, olhando o cinza do asfalto enquanto penso e o azul do céu para esvaziar meus pensamentos. Observarei cada pássaro pensando no quanto seria bom poder voar, e que ainda que eu tivesse asas, o peso do acontecido agora me pressionaria tão intensamente contra o chão, que meus passos deixariam rastros de rachaduras. Ando rachando as durezas e deixando no maleável esculturas vazadas dos meus pés inquietos. É que outro dia eu estive flutuando em levezas, e talvez por inveja, aqueles que não a podiam despertar em si, resolveram me encher de esperanças obesas, que ingenuamente aceitei, e agora, será assim, até que caminhe o suficiente para me livrar de todo esse excesso.

Não forçarei minha face a nada, nem expressão de farra, nem expressão de dor. Estarei íntegra em cada momento, deixarei fluírem minhas cores, guardarei as lágrimas para os quartos e os banheiros, só porque é assim que eu sou. E quando ficar embriagada, escreverei cartas que nunca serão enviadas, poemas que depois serão apagados, e mandarei mensagens pelo vento, apenas para não te dar o gosto de ouvir minha voz nem em pensamento. Falarei dos meus pessimismos e das minhas decepções, assim como outrora – e certamente, como voltarei a fazer; falei dos meus sonhos e dos meus amores.

Continuarei amando. Derramando amor pelo mundo, sorrindo pela chuva, pelas nuvens sempre em fuga pelo céu, pelos pássaros cantando às 17 horas em pleno centro sujo da cidade como se fossem um despertador para a vida. Continuarei sorrindo pelas flores que nascem fora de época, e pelas que nascem no tempo certo também. Cantarei gargalhadas pelas besteiras fúteis da internet, pelas passagens cômicas perspicazmente elaboradas pelos meus miolos tortos de tanto mudarem de lugar, pelas sacadas sutis no sarcasmo e na ironia de certos autores.

Não me envergonharei mais pelas palavras dispensadas, fossem doces ou amargas – eram sinceras, pelos olhares trocados, pelas incoerências e confusões. Não cobrarei por culpa, nem me sentirei culpada. É apenas como as coisas são. Quando somos abençoados com um sentimento intenso, podemos por um momento viver como figuras divinas, seres mágicos que como tudo podem, simplesmente se entregam, arriscam, permitem-se embriagar com o elixir das experiências fantásticas, dessas peculiaridades das coisas compartilhadas sem a intervenção das usuais barreiras neuróticas.

Mas como não se pode ficar para sempre nesse torpor, e como há todo um “lá fora” que vem nos perturbar, seja pelas experiências mortas que nos assombram, seja pelas vozes sábias que nos aconselham sem nunca seguir a direção da própria língua, logo contaminamos nossa fonte de afetos honestos com dúvidas e exigências curriculares: “Porque para estar ao meu lado tem que…”, retumbavam verbalizantes seus passos para trás. Só que não tenho vocação para preencher requisitos. Não estou procurando por uma profissão disfarçada de paixão.

Porque para me acompanhar neste caminho no qual me arrisco, é preciso ter vontade de seguir e ter coragem de sangrar. E só. Algo como ser assumidamente e apaixonadamente humano.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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