Defina 2015 em uma palavra!

Deparei-me numa rede social com uma postagem que trazia a frase que inspirou o título acima. Não tive dúvida e digitei “surpreendente!”.

Nos segundos que vieram em seguida, ainda me vieram à mente os vários momentos em que reclamei de cansaço e insônia durante o ano de 2015. Ainda neste ponto do meu pensamento, confirmei a mim mesma, o que havia digitado. Não interessava todo o cansaço. Foi surpreendente sim!

Olhei para trás e vi que todo o peso do meu cansaço havia razão de existir. Não foi fácil deixar para trás o trabalho que gostava e as pessoas as quais era apegada. Foi difícil encarar o novo, tão surpreendente que chegou, sem ao menos eu ter tido procurado.

2015 me trouxe não apenas um novo trabalho numa baita multinacional. 2015 me trouxe a oportunidade de curas. Depois de quatro anos de volta ao Brasil, após os seis anos em que havia morado na Alemanha, eu ainda carregava os traumas que havia vivenciado.

Para quem não sabe, o ser estrangeiro, seja onde for, é algo tão dolorido e único na vida de um ser humano, que os livros especializados em depressão, costumam ter capítulos inteiros dedicados ao assunto: estrangeiro!

Quem me conhece sabe bem que eu sofri e não gostei tanto assim da experiência. Me tornei, na época, outra pessoa: brava e reclamona. Não me adaptei à cultura e aos costumes do país. Durante quase seis anos, mais reclamei do que agradeci. Acho mesmo que devo ter me tornado um saco. E felizmente o processo foi reversível. Voltei a ser eu mesma gradativamente, assim que retornei ao meu país. Minto. Me tornei uma nova eu, melhor do que a anterior e a anterior da anterior.

Independente disso, algumas experiências estavam arraigadas em mim, como traumas e feridas que levava comigo, ainda que escondidas.

Quando aceitei o meu novo trabalho, já no primeiro dia os traumas foram comigo. Novamente tendo que falar a língua alemã e conviver com vários alemães, acreditava que a qualquer momento iria reviver experiências negativas.

Nada disso aconteceu. Muito pelo contrário.

E eu aprendi a reaprender.

Vi que meus colegas alemães eram os melhores que eu poderia ter. Apesar de agora estar na posição contrária e ouvir as contrariedades sobre o Brasil com bastante frequência, entendi que era a minha vez de ouvir as reclamações. Talvez assim a Alemanha pudesse me perdoar, pelas inúmeras vezes em que dela reclamei.

Percebi que não apenas tinha num novo trabalho e oportunidade profissional. Mas a vida estava me dando uma chance de curar feridas, que não eram mais necessárias de serem carregadas.

Além disso, melhor do que um novo emprego e novos conceitos substituindo os velhos, foi perceber uma nova eu mesma: resiliente e grata, que apesar de todo cansaço, aprendeu a tirar todas as lições possíveis com a vida.

2015 não foi fácil. Sofri de amor e sofri de insônia. Tive contas para pagar que achei que não conseguiria. Sofri desilusões. E muitas vezes pensei: “Eu não vou dar conta!”. Mas eu dei. Escrevi mais alguns livros. Derrubei muitas lágrimas, eu sei, mas ainda assim fui mais feliz do que triste.

2015 foi surpreendente sim. Coincidência ou não, em 2014 eu escrevi o livro “Vamos Vida, me surpreenda!”, que continha o texto de igual título, onde eu fazia a seguinte afirmação: “Vamos vida, me surpreenda! Aceito o que for, que seja! Venha vida, como quiser!”

E tudo o que posso escrever e sentir agora é: obrigada Vida! Obrigada 2015!

Vocês foram simplesmente surpreendentes!

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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