De tudo que é mais sagrado

Imagem de capa: Khosro/shutterstock

Sou feita de estranheza e feminices. De candura e aspereza. De alecrim e quebra-pedra. Relicário que tem por tampa os mistérios de minhas mulheres.

Soube de muito que um chá curava tudo, de dor de moça em dia de chico a aperto no coração em caída de tarde, mas que era leite queimado que acalmava a tosse em noite de lua.

Aprendi sobre a lua… e nas viradas ainda uivo… como toda loba de boa matilha, me ensinaram a cuidar da cria, mas amamentar filhote alheio. E ir abarcando rebento de leite e irmã de peito, sabendo que amiga na guerra é aliada… e luta é o que nunca há de faltar.

Aprendi cedo a chorar baixo e a cantar alto. Mesmo lamento de enganar solidão ou espantar mau-olhado, porque quebranto se afasta com reza mas só finda na oferenda. É que a santa tem força e capricho, e as benzeduras, incensos e promessas, mal nunca hão de fazer.

Fui crescendo ouvindo conselho para não ouvir coitada, com amargo de boldo e água de cheiro, patuá feito com pano branco e muito sal grosso… que servia pra olho gordo, mas também pra fechar ferida.

Muito de quando em vez, ajudava na lida. Varria pó com vassoura fina… e de leva, qualquer pensamento ruim. Deixava pronta a sala pra visita, que entrava sem cerimônia… porque a casa se tinha porta, a porta não tinha tranca… amigo era bem vindo e não carecia de aviso… desafeto, acaso existisse, a espada de São Jorge recebia ou tratava de aviar… e todo dia tinha alguém de fora pra almoçar!

Quem chegava, encontrava fumaça no fogão, e em dia de segunda, angu mole com carne moída e couve picada fininha. café com pão sem miolo, que eu nunca aprendi a gostar…

Como nem tudo era delicadeza, percebi que mulher se metia em assunto de homem. Batia prego, asa, ponto e muita perna na rua. E sabia como ninguém juntar os poucos dinheiros e fazer com que a caixinha desse pra semana… por sina e por desvelo, carregava o peso do trabalho durante o dia, o do marido no claro da madrugada e das culpas por todas as horas.

Prazer, se havia, era coisa que não se mostrava. Pra que esbanjar com a alegria, se o bonito era sofrer… no máximo o luxo de um banho bem quente e de banheira, onde no segredo das vergonhas, se olhava sem se tocar.

No mais o tudo era o fiar e a lembrança das coisas, umas de ver de perto e outras de ouvir falar. Muito! Pois causo é coisa que se repete! E a gente ia sabendo o final e apurando o detalhe… percebendo a escorregadela em algum ponto… do enredo ou da costura. Rendados de tear… trama de tricô e barrados de crochê feitos com agulha miúda… e eu gostava mesmo é da bordadura em ponto de cruz e com linha de tecer sonho. E que ninguém me cobrasse o avesso.

No correr da brevidade, seguia a certeza de que a vida ia dando certo na medida da pouca cobiça, e que o filho ia ser estudado! Os medos rodavam na altura das saias e as aflições se desmanchavam em recatos, pudores, ousadias e coragens. E todo o amor se fartava, na benção de minhas mulheres encantadas. De Nossa Senhora do Perpétuo Socorro!… que é sempre quem salva. E do sagrado feminino.

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Paula Quinaud
Designer de Ambientes e Produtos, por profissão. Especialista em Arquitetura Contemporânea e Cinema, por interesse. Professora Universitária, por pura vocação. Mãe em tempo integral, por um amor imenso. Catadora de palavras, por necessidade absoluta.

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