Dar e receber

Imagem de capa:  Grassmemo/shutterstock

Segunda-feira eu estava no meu trabalho de voluntariado do Refood (que consiste em pegar “sobras” de comidas de restaurantes, cafés e supermercados, organizar e distribuir refeições completas para famílias necessitadas, mendigos, velhinhos e etc).

Eu estava no estande de distribuição, em meio a uma praça, cumprindo minha tarefa: separar em caixas os tupperwares entre limpos e sujos.

Uma senhora que busca diariamente comida conosco chegou mais tarde que de costume e estava lamentando que só haviam comidas duras (como maçãs e pães tipo italianos) porque seus dentes estavam doendo muito.

Minhas colegas saíram do estande para o depósito para checar se haviam comidas mais moles. A senhora continuava a falar sozinha… reclamava e lamentando sua vida, chorava dizendo tudo o que estava sentindo. Eu, a ouvia enquanto cumpria minha tarefa, até que dada hora, saí de trás da mesa e disse:

– Dona Pilar, venha aqui, a senhora precisa de um abraço. Me abrace como se eu fosse sua filha que está na França. Me abrace como se eu fosse sua mãe falecida. Me abrace como se eu fosse o amor da sua vida.

Nos abraçamos e lhe dei um beijo estalado na bochecha. Neste instante as meninas chegaram com as sopas que haviam acabado de chegar. Dona Pilar agradeceu-nos e me fez bem pensar que saiu pelo menos se sentindo mais acolhida do que quando chegou. Eu também saí melhor do que quando cheguei lá.

Dois dias depois, eu estava na maior confusão. No meio da rua, três coisas “deram erradas” seguidamente. Sentei-me em um canto de uma calçada, na frente de uma loja e comecei a “desabafar” escrevendo no notes do meu celular. Comecei a chorar… chorava escrevendo. Escrevia chorando. Reclamando. Questionando. Sofrendo e verbalizando para mim mesma na tela do celular. Até que um moço barbudo se agachou na minha frente, tocou na minha perna e me disse:

– Você está bem?

– Sim, está tudo bem, obrigada. – respondi eu com os olhos inundados de lágrimas e provavelmente meu nariz classicamente vermelho.

– Você está chorando, sentada na calçada. Claro que não está bem, vem comigo! Eu te pago um café! – se levantou me estendendo suas mãos e me ajudou a sair da rua e do meu inferno interno.

Naquele momento, aquele rapaz, chamado Pedro, me trouxe imediatamente para “o aqui e agora”. Me senti miserável. Fiquei com vergonha. Patética. Chorona. Lhe pedi desculpas. O nosso café foi uma grande terapia que acabou virando almoço… Saí do tufão interno e atordoante que me desgastava e vi luz e alegria no caminho.

Só hoje que me dei conta: salvei dona Pilar e no dia seguinte fui salva pelo Pedro. O universo é rápido. É sábio. Reconheça sempre a beleza, faça sempre o seu melhor. Tudo veeeem! Como diria a música-mantra Ananda de Deva e Miten “Não lute com a vida e a vida simplesmente se encarrega de te ajudar”.

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Helena Cecília de Fraga Verhagen
Helena é jornalista de formação e escritora por intuição. Nasceu em São Paulo, viajou pelo mundo e agora parou na Espanha. Em 2015 lançou seu primeiro livro "O Mundo é das Bem-Amadas" que trata sobre o amor próprio e intuição. Vive a vida para contar histórias. Escreve para o seu site, que leva o mesmo nome do livro (www.omundoedasbemamadas.com.br) e outras mídias que abordam sobre o tema autoconhecimento.

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