Cultura da crítica

Imagem de capa: Kapitosh/shutterstock

Ano passado tive uma consulta para um check up com uma dentista que eu não conhecia. Como estava tudo em dia, ela começou a encontrar “defeitos” na minha boca:

Seus dentes não estão alinhados, essa gengiva é muito alta enquanto essa é baixa demais. Está vendo este desnível dos seus caninos. Nossa! Esses dentes estão pontiagudos demais, você rói unhas?

Após uma análise pior do que um jogo de sete erros, ela me sugeriu um tratamento que levaria três meses “para arrumar tudo”. Quando me perguntou o que eu achava, eu lhe disse:

– Olha eu vim aqui saber como estava a saúde da minha boca. Sim, você tem toda razão em relação a estes “defeitos”, mas eles não me incomodam. Para mim eles são minha história, e não problemas para serem consertados em um tratamento.

Pelo amor! Não seria muito mais legal se ela dissesse: “Nossa! que maravilha, Helena! Está tudo lindo, não há cáries, tártaros, nem canais. Se quiser podemos fazer uma limpeza.” Há quem dirá: mas assim ela não venderia o peixe dela. Pois eu digo: boba ela que perdeu uma paciente para sempre de tão chocada que fiquei! Eu lá vou querer ir em uma dentista que só enxerga defeitos na minha boca? Eu nããão, não volto nunca mais!

Quantas pessoas eu vejo que se deixam levar por comentários (ou críticas) gratuitas deste gênero. O cabelo ondulado, a pinta nas costas, a barriguinha, as marcas de expressão, os cabelos brancos, as unhas roídas… e assim por diante. Acho que a saúde, seja lá o que for, sempre está em primeiro lugar. O resto é o resto. Ninguém tem o direito de te criticar, e você, não seja bobo/a de cair na crítica!

Mas como vivemos em um mundo com tantas pessoas inseguras e autocríticas, cada vez mais se torna comum profissionais que “te ajudarão a melhorar seus inúmeros defeitos”. Outro dia uma amiga estava indignada com uma cabeleireira que a sugeriu fazer uma progressiva porque seu cabelo chanel fazia uma curvinha para fora. Desde quando isso é um problema?

Acho que está mais do que na hora de nos aceitarmos, de nos transformarmos, de nos embelezarmos com amor… Corpo, mente e espírito. Nesses tempos, é muito sutil a linha entre se sentir bem e buscar estar bem. Ter um olhar doce, sereno, com compreensão, aceitação por nós mesmos é essencial. É neste olhar que encontramos força para melhorarmos o que já há de bom… Quando reconhecemos a nossa própria beleza, nenhuma crítica que vem de fora ressoa dentro de nós. Com ou sem maquiagem (ou salto, gravata, perfume…) você nunca é menos.

Já me perguntaram muitas vezes porque tenho tantas tatuagens nos pés… Na infância e na adolescência eu tinha muita vergonha deles, odiava mostrá-los. Aí comecei a pintar as unhas com cores divertidas (azul, verde e etc) daí passei a achá-los mais exóticos e divertidos. Aos 18 anos, passei a fazer “minhas tattoos favoritas” nos pés para eu passar a amá-los. Deu certo! Acho engraçado que hoje em dia quando ando na rua, as pessoas sempre pousam os olhares nos meus pés para apreciar as tattoos e me sinto confortável. Outro dia até pediram para fotografar minha elefanta! Já tive um conhecido que falou: “Que horror este pé! Cheio de tatuagem!”. Mas simplesmente não me incomodou porque eu, hoje, amo meus pés com seus mil ossos saltados tatuados e unhas coloridas

COMPARTILHE

RECOMENDAMOS



Helena Cecília de Fraga Verhagen

Helena é jornalista de formação e escritora por intuição. Nasceu em São Paulo, viajou pelo mundo e agora parou na Espanha. Em 2015 lançou seu primeiro livro “O Mundo é das Bem-Amadas” que trata sobre o amor próprio e intuição. Vive a vida para contar histórias. Escreve para o seu site, que leva o mesmo nome do livro (www.omundoedasbemamadas.com.br) e outras mídias que abordam sobre o tema autoconhecimento.


COMENTÁRIOS