Cuide bem de mim, mesmo quando eu tiver ido embora

Aguente firme, isso pode doer mais do que qualquer outra coisa já tenha doído, mas vai passar, eu juro que vai. Nós somos jovens, com toda uma vida pela frente, tantos deslizes ainda a cometer e tantas promessas ainda por cumprir.

Não foram poucas as lágrimas, é verdade, mas também não foram poucos os sorrisos e sorvetes, as cócegas e as noites passadas em claro com conversas animadas sobre os planos futuros. Planos traçados com a pressa de quem quer engolir a vida em um só trago. Planos que não cabem na gaveta de um só viver e que por isso dividimos entre nós.

Não precisa pegar de volta todas as suas coisas. Por que não finge esquecer por aqui aquele par de sapatos que você tanto gosta, ou uma dúzia de versos escritos em guardanapos? Assim você poderá voltar sempre, abrir as portas do meu armário e do meu guarda-roupa e, assim, sem querer, esquecer mais um xale ou um colar, dando início a um círculo vicioso de desculpas para nossas saudades se encontrarem.

Vamos prometer levar conosco o costume de caminhar de mãos dadas sob o olhar entusiasta dos casais de idosos no parque aos domingos, mesmo que não seja mais a sua mão sobre a minha, nem os seus passos ao lado dos meus. Prometer que nossos telefones ainda irão tocar na calada da noite e que ainda trocaremos segredos de nossas vidas íntimas. Prometer que iremos continuar a nos tratar carinhosamente, talvez até com os mesmos apelidos de sempre, como mozão ou xuxuzinho.

Mesmo que nada disso seja verdade, vamos prometer. O coração pesa menos quando contamos mentiras sinceras.

Não posso te devolver os anos que passou comigo, já que eles são parte do que eu sou agora, do que eu me tornei, como um braço ou uma perna e não tenho nenhum interesse em ficar manco. Gostaria que ficasse também com aqueles que eu dediquei à você, porque posso dizer sem medo de errar que foram os anos mais bem investidos até o momento.

Cuide com carinho das piadas ruins que eu contei para quebrar o gelo no nosso primeiro encontro, nunca se sabe quando elas poderão ser úteis. Das feridas não quero notícias, das cicatrizes tampouco. Ao invés disso, me conte do seu novo rapaz e de como ele toca bem no violão aquela música que eu nunca aprendi.

Não quero me tornar apenas mais um livro na sua estante, sem mais nenhuma página a ser lida. Prefiro ser como uma estrela no céu, para a qual você sempre poderá olhar da janela do seu quarto, uma pra você dar nome e reconhecer no meio da multidão celeste.

Guarde bem entre as fotografias que quase tiramos e tudo aquilo que eu quase disse – talvez seja mais importante do que tudo o que eu já falei até agora.

Acima de tudo, guarde com você o que eu fiz, não o que eu apenas pensei em fazer.

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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.



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