Crônica das nossas mortes anunciadas

Vivemos em um mundo de ordem inversa, em que as palavras são ressignificadas a todo momento para que as tragédias cotidianas que nos oprimem não sejam percebidas, embora estejam expostas para quem deseja enxergar. Se outrora as tragédias se apresentavam primeiro como tragédias, depois como farsas, em nossos tempos as tragédias se repetem como tragédias, todos os dias, em cada esquina, em cada olhar, em cada sentimento que se esvai pelos ralos ou pelos esgotos.

Vivemos em um tempo sombrio. Fomos arrebatados pelo medo, pela insegurança, pela indiferença, pelo egoísmo, pelo ódio, pelo terror, pela resignação. Vemos todas as misérias que acontecem ao nosso redor, mas fingimos não ver. Ou quando vemos, preferimos acreditar que não é possível se fazer nada, que aquela é a ordem natural do mundo, que devemos apenas aceitar.

Entretanto, não é porque nos resignamos, que as violências brutais que nos abatem deixam de acontecer. Parece paradoxal, irônico, surreal, mas enquanto mergulhamos nas maravilhas tecnológicas, que a cada segundo pulsam em nossas telas, milhares de pessoas morrem por falta de comida. Será que isso não merece a nossa compaixão ou, pelo menos, a nossa reflexão? Será correto aceitar a injustiça como coisa fortuita, como direito divino, para não contrariarmos ao deus capital?

Talvez seja difícil se compadecer de quem sofre a distância, ou compreender algo sem ter passado, de algum modo, pela experiência. Mas, e quanto aos nossos sofrimentos diários, às lagrimas que escorrem em silêncio, às cobranças e dores que nos têm feito adoecer? Será que é tudo “natural”? Será que é realmente saudável se adaptar a uma sociedade doente? Qual o preço que nós e o planeta, do qual somos parte, estamos pagando por fazer parte de uma ordem criminosa de mundo?

Se o crescimento da desigualdade social, da fome, da miséria, da violência, dos casos de depressão, de ansiedade e de suicídios for um indicativo da resposta, creio que ela não é muito agradável. Mas, por mais desagradável que seja, devemos enfrentá-la, a fim de que possamos invertê-la, de que possamos criar novas possibilidades, de que possamos, juntos, sonhar um novo mundo, porque se há alguma chance de mudar as coisas e tirar a poeira da história, é preciso que sejamos revoltosos e o sejamos já, sem demoras, porque o mundo urge por mudanças que o façam resplandecer suas belezas.

Enquanto estivermos inertes e convencidos de que nada pode ser feito, de que somos pequenos demais, de que somos apenas homens e mulheres tentando sobreviver ao drama da existência, continuaremos afogados entre lágrimas e suor, nossos e dos outros, continuando a viver por fora e apodrecendo por dentro. Continuando a viver a tragédia de mortes anunciadas, que todos sabem, mas que insistem em não ver e, por isso, a permitir que elas se repitam ora como tragédias, ora como tragédias.

Imagem de capa: Sergey Shubin/shutterstock

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Erick Morais

“Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.”

Contato: erickwmorais@hotmail.com


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