Corações sujos

Sair de casa com a roupinha cheirosa, sapato limpo, tudo arrumado e no seu lugar, e, no meio do dia já parecer um boneco amarrotado, é da vida. Para permanecer impecável, não se pode sair da vitrine. Esse é o ciclo suja-limpa-suja de todos os dias, com o corpo, as roupas, a casa, as ideias, as meias, as palavras.

A sujeira em si não é nada, é fuligem, poeira, voa para longe num sopro mais forte. A permanência da sujeira é que a fortalece, cria visgo, adesão, crosta.

Um sapato muito sujo ainda pode ser lavado e esfregado até que fique limpo novamente, embora com manchas e partes desgastadas.
Para um coração sujo não há alvejante no supermercado. Para décadas de depósito de poeiras e sujeiras, não há equipamento que aspire nem lave.

Alguns corações são sujos porque se permitiram virar depósito. Outros porque sentiram preguiça de efetuar as limpezas regulares, não encarando o lixo acumulado. Outros ainda talvez nem reparem, talvez pensem que está bem assim, que é normal olhar pela janela “cinzenta” e não enxergar o céu azul.

A limpeza de um coração exige renúncia. Renúncia ao lixo que virou escudo, cortina, fechadura.
Um coração sujo contamina os demais, exala veneno e ar tóxico, nem sempre porque quer, mas porque não sabe fazer diferente.

Como uma casa inabitável, um coração sujo precisa de faxina, de reforma, de uma grande caçamba na porta que caiba tudo o que não deve ficar mais, de um incinerador de mágoas e cobranças, de uma boa mão de tinta depois de lixado e lavado.

Não se condena uma roupa ou um sapato ao lixo porque estão sujos. Tampouco uma casa. O trabalho pode parecer impossível. E para alguns corações, é impossível mesmo dar conta sozinhos.
É preciso pedir ajudar. Família, amigos, profissionais, estudos, viagens, músicas, exemplos… Todo recurso é bem-vindo.

Ajudar um coração sujo a reaver sua cor e seu vigor é contribuir para a limpeza e manutenção do seu próprio coração, é entender o que quer dizer esse símbolo usado mundialmente para expressar o amor.

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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