Contemplação da paixão

Imagem: Oksana Yurlova/shutterstock

O que sentia, eu não conseguia decifrar até hoje pela manhã me vir isto à cabeça: “você sente uma paixão madura”. Tentarei do meu jeito de escritora, e não de jornalista, traduzir do que se trata.

Paixão madura é quando me sinto completamente enfeitiçada quando estou fisicamente na sua frente. Um grande branco e silêncio surgem em minha mente, e quando você fala é como se uma parte de mim te ouvisse, e a outra me teletransportasse para onde não há tempo ou espaço.

Através da paixão madura consigo apreciar o diferente. Por exemplo, identifico muitas das suas reações como opostas às que eu teria diante da mesma circunstância, mas tenho o discernimento de compreendê-las e aceitá-las porque enxergo você, e não me projeto mais, como já tanto fiz.

Dizem que só mudamos um padrão de comportamento quando revivemos uma mesma situação e agimos de uma forma diferente do que estávamos habituados. Agora, me sinto em um caderno novo de páginas em branco porque me vejo me reinventando e aprendendo a me conhecer também em novas reações que até então eu desconhecia e não imaginava que poderia vivenciar desta forma, muitas vezes, ao meu ver, madura (e por que não também zen?). Ao seu lado, eu criei a coragem para agir diferente.

Na sua presença, eu enxergo tantas desculpas que me dei numa fuga contínua de recusar-me a apreciar o novo ou mesmo, aprender a gostar de algo que um dia não gostei. Erva-doce, tomilho, orégano, gengibre… me neguei durante anos a apreciar esses condimentos, sempre reclamei do gosto de terra e, muitas vezes, cheguei a discutir por prová-las em meu paladar. Como fui boba. Precisava vir uma criatura como você, que me enfeitiça com o olhar, que me cala subitamente e me leva ao meu próprio nirvana para eu provar e aprovar muitas coisas que sempre me dei ao trabalho de condenar.

Já em outros pontos, eu percebo que minha passividade não passava de timidez, insegurança e medo. Não é que eu era indiferente, muito pelo contrário, mas simplesmente não me sentia pronta para enfrentar a escuridão dentro de mim mesma. Meu problema nunca foi a condenação e julgamento alheios, mas sim a falta de acolhimento que eu não conseguia me proporcionar. Pior do que ser a tonta para os outros era eu mesmo me chamar de tonta. Através da paixão madura, não só te enxergo como também me enxergo e o melhor, gosto do que vejo dos dois lados das duas moedas.

Certamente, o que mais admiro na paixão madura é não ter pressa. Não preciso falar com você porque basta apenas eu fechar meus olhos que sigo te contemplando com a certeza de que quando eu te encontrar novamente, terei mais e novas percepções que me encantarão. Não estou criando, inventando, projetando ou idealizando, apenas aprendi a apreciar o que meus olhos vêem e minha alma percebe.

Este estado calmo e passivo diante de uma grande paixão deve vir mesmo da maturidade. Obrigada por ser minha testemunha de mim mesma, e mais, por me deixar te amar do meu jeito, assim como me permito ser amada do seu.

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Helena Cecília de Fraga Verhagen
Helena é jornalista de formação e escritora por intuição. Nasceu em São Paulo, viajou pelo mundo e agora parou na Espanha. Em 2015 lançou seu primeiro livro "O Mundo é das Bem-Amadas" que trata sobre o amor próprio e intuição. Vive a vida para contar histórias. Escreve para o seu site, que leva o mesmo nome do livro (www.omundoedasbemamadas.com.br) e outras mídias que abordam sobre o tema autoconhecimento.

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