Como superar a Síndrome do Ninho Vazio

A primeira relação significativa do bebê é com um dos pais, ou ambos, uma figura que representa cuidado e atendimento das necessidades básicas, como alimentação e proteção de quaisquer agentes externos, além do preenchimento das necessidades emocionais, como afeto e amor. À medida que a criança vai crescendo, explorando o mundo e suas possibilidades, testando seus limites e se deslumbrando, ou se frustrando, com as pequenas descobertas, começa o aprendizado que lhe permite adquirir autonomia e, gradativamente, a capacidade de cuidar de si mesma, sendo os adultos os principais responsáveis por orientá-la nas etapas naturais de individuação e independência. Isso significa que, aos poucos, a criança vai passando a depender cada vez menos dos adultos.

No processo natural da vida, os filhos crescem, adquirem autonomia, aprendendo a caminhar pelo mundo, vivem suas próprias experiências e a busca pela individualidade. Num belo dia, eles se casam ou viajam, vão estudar fora ou simplesmente querem o próprio cantinho, situações inerentes à história de todos. E o que isto pode significar para o pai, para a mãe ou ambos? O segundo corte do cordão umbilical, feito então pelo filho, pode se transformar na síndrome do ninho vazio, que, apesar da denominação, não caracteriza um transtorno. Trata-se de uma crise passageira, mas que pode causar adoecimento, caso se prolongue e não seja tratada. No caso de a família ter se estruturado para a transição, essa será mais tranquila, mas ainda assim dolorosa. Porém, se os pais viveram apenas em função dos filhos, ao esquecerem de seus projetos e sonhos de vida, desenvolvendo em relação a eles uma dependência emocional, a separação esperada e necessária acabará se tornando fonte de sofrimento.

Num primeiro momento, a tristeza decorrente da partida de um filho é compreensível. Afinal, quebra-se uma rotina onde os pais têm uma função e se sentem úteis, mesmo que ela seja permeada por conflitos. A mudança desse cenário traz implícita a sensação de impotência e perda. A ocorrência da síndrome do ninho vazio depende também de fatores psicológicos, como ansiedade e uma tendência a dramatizar os fatos da vida, de maneira geral. No caso da mãe, se ela abdicou de carreira ou trabalho para se dedicar aos filhos, a percepção de que eles já não dependem dela pode ser motivo de profunda tristeza e sensação de menos-valia e provocar ressentimento em relação ao que ela percebe como ingratidão dos rebentos. A menopausa também pode contribuir como agravante, por representar o final de um ciclo biológico e ser percebida como sinal de envelhecimento. A síndrome do ninho vazio também acontece em decorrência de uma dor inimaginável: a morte de um filho, quando o luto é real e a dor da perda, concreta.

O relacionamento dos pais deve ser levado em consideração. A convivência, a cumplicidade, o diálogo, estabelecidos ao longo do tempo, farão diferença na separação. Importa se a saída do filho foi dolorosa, motivada por brigas, ou feita pacificamente. Os filhos também têm uma parcela de responsabilidade na sensação de abandono vivida pelos pais, ao se afastarem e não cumprirem as promessas de manter contato e fazer visitas periódicas. Independência financeira não significa abandono afetivo, e a saída do lar pode, e deve, ser preenchida por uma nova forma de relacionamento, mesmo que a convivência se torne mais espaçada. Vendo a mudança como oportunidade, é possível buscar novos objetivos na vida: olhar para dentro de si, para não depender do reconhecimento de um outro. Há vários projetos possíveis, como voltar a estudar, fazer cursos, trabalho remunerado ou voluntário, dedicar-se ao cônjuge e a ampliar a rede social. Caso contrário, a tristeza normal decorrente de uma quebra na rotina, e que, segundo os especialistas, tem hora para acabar, pode se transformar em depressão.

Na teoria, tudo se encaixa com facilidade, pela disseminação de soluções milagrosas e achismos. A vida é bem mais complexa que os manuais de autoajuda supõem, e situações para as quais as pessoas não se prepararam geram sentimentos e emoções com os quais é preciso aprender a lidar.  A evolução dos filhos não apenas é necessária, como indica que a missão dos pais foi cumprida, qual seja, preparar um ser humano para se tornar um indivíduo que contribuirá com a sociedade e continuará a escrever a história de sua família. A saída do lar de sua infância pode, e deve, simbolizar uma nova fase na vida dos pais.

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Maria Cristina Ramos Britto
Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental, trabalha com obesidade, compulsão alimentar e outras compulsões, depressão, transtornos de ansiedade e tudo o mais que provoca sofrimento psíquico. Acredita que a terapia tem por objetivo possibilitar que as pessoas sejam mais conscientes de si mesmas e felizes. Atende no Rio de Janeiro. CRP 05/34753. Contatos através do blog Saúde Mente e Corpo.



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