Como perceber o mundo pelo olhar de um artista

Há um tempo eu tenho ouvido falar sobre a profissão de coolhunter. Esses profissionais passam a vida procurando referências para juntar tudo e descobrir qual vai ser a nova tendência que vai encher os olhos de todo mundo. É uma mistura de marketing, comportamento do consumidor, arte e MUITA pesquisa. Talvez essa seja a profissão mais legal do mundo. Imagina, ficar o dia inteiro descobrindo coisas! Mas não é tão simples assim, né? Claro que nem sempre ele vai criar alguma coisa, mas vai dar o caminho, para que as empresas lancem seu novo produto, ou façam uma nova campanha. A questão é que dá para ter o espírito coolhunter de várias formas, até mesmo para os seus projetos pessoais. O importante é ter um olhar crítico e perceber que tudo tem um potencial. O coolhunter foi só uma especificação pra uma profissão que PRECISA estar ligada o tempo inteiro, mas, para olhar o mundo como um artista, para criar algo novo e relevante, é preciso ser um caçador de tudo.

As coisas podem parecer inanimadas, mas tudo é vivo. Tudo tem um sentido que pode ser criado por você e é por isso que tudo tem uma magia por trás. Uma folha caída no chão pode servir de inspiração, talvez seja a peça chave da sua ideia. Anote tudo e preste atenção em tudo. Prestar atenção não significa apenas saber tudo que está acontecendo ao redor, mas olhar fixo para cada coisa. O degradê da natureza é uma das coisas mais incríveis que existem. Já parou para observar? O céu é uma pintura que muda a todo instante e nunca fica igual. Uma maçã é amarela e vermelha e essa combinação de cores parece completamente perfeita ali. A areia tem milhões de tons, as pessoas têm milhões de tons. Esse tal de Deus, se existir, deve ser um artista plástico bem indeciso. Sorte a nossa que ele tem essa indecisão toda e não deixa nada monótono.

Para ser original, é preciso repetir padrões, até chegar à sua ideia brilhante e até conseguir criar algo que realmente faça a diferença, como uma tendência, por exemplo, que influencia uma sociedade inteira. O legal é criar algo que realmente faça diferença na vida das pessoas, que questione, instigue, puxe as pessoas para cima.

Nenhuma ideia surge do nada, então, tenha referências, pesquise, procure. A notícia boa é que tudo pode servir como referência. Os melhores criadores de tendência são aqueles que percebem essa referência nas coisas comuns que ninguém vê. Uma folha seca, uma garrafa de água, o jeito que um livro cai no chão e faz determinado som. Tudo é experiência, tudo serve na hora da criação, por isso, é preciso estar atento e anotar tudo. Registre TUDO que pareça interessante de uma forma interessante. Não importa o jeito que ela vai ser registrada, mas registre. Tenha um espaço para guardar suas referências. Você vai precisar de todas algum dia. Não invente que vai lembrar depois, porque você sabe que não vai. Nunca descarte uma ideia. Às vezes, ela não é boa agora, mas, no futuro, vai servir ara outra coisa que você nem imaginava. Pare de procurar a resposta. Descubra quais são as perguntas certas.

Ouça mais do que fale. Todas as pessoas são interessantes. Se você não viu nada, é porque não olhou direito. Todo mundo tem histórias para contar e todo mundo conta uma história de um jeito único. Anote as histórias, interprete as feições e os sentimentos. Tente descobrir o que está por trás de cada palavra, cada gesto. Nada deve ser descartado, quando se trata de gente. Elas são o foco de qualquer criação.

Faça associações, padronizações, conexões e invente. Cruze uma árvore com um raio-x, um peixe com um smartphone, um ônibus com uma vaca e fios elétricos. Perceba o movimento das coisas, que você vai começar a perceber um padrão em tudo e as associações vão aparecer normalmente. Nunca descarte uma ideia maluca que você acha que não tem nada a ver. Elas podem fazer sentido em algum lugar, em algum espaço, em alguma história ou em algum desenho. Cruze linhas, observe o abstrato, dê uma segunda chance, sempre.

Tenha um espaço para pensar. Hoje em dia, a gente tem pouco tempo para ficar de bobeira e isso é ótimo se a gente não der espaço para pensar bobagem. É incrível saber o que as pessoas estão fazendo e como elas veem o mundo, mas pensar sozinho deve ser um exercício diário. É preciso ter um espaço no seu dia, para pensar sem influência de nada. É hora de reorganizar o que você descobriu. Pensar nas suas conquistas, no que você fez, tentar se descobrir sozinho, conhecer sua companhia. Encontre o equilíbrio entre os outros e você. Você sempre vai precisar das pessoas, então, cuide delas. Cuide de você. Você é o personagem principal da sua vida, por isso, pense bem em como você quer que ele seja. Aceite suas limitações, mas sempre sabendo que é possível vencê-las. E, às vezes, não precisa vencer nada. Aceite que você não gosta de acordar cedo. Vá correr à noite. Crie alternativas para os problemas diários que o afligem. Mude a rotina, se for preciso. Você pode ser o que quiser.

Mude rotas. A gente tem o costume de sempre ir pelo mesmo caminho aos lugares. Tente descobrir novas formas de ir. Pare em algum lugar por onde você sempre passa, mas nunca se dá a chance de conhecer as pessoas dali. Procure a origem das coisas, as raízes de tudo. Elas são um bom fio condutor de uma história. Observe a luminosidade do dia. Minha hora preferida é às 16 horas. A luz reflete nas coisas de um jeito diferente em cada momento do dia, por isso, uma rua passa a ser várias ruas diferentes em cada momento do dia. Descubra sua hora preferida e aprecie esse momento, sempre que puder. É o seu momento.

Incorpore e aceite que tudo é inconstante. Nada está finalizado e você tem a oportunidade de vivenciar isso. Viver é isso. Todos os dias, você tem a oportunidade de ver o processo de transformação das coisas. Sua criação já tem todas as ferramentas necessárias e está tudo ao seu alcance. Olhe de novo, se achar que não viu nada. Dialogue com o ambiente à sua volta. Crie um modo de fazer isso, não interessa como. Eu ainda estou tentando descobrir o meu.

Pare de procurar o sentido em tudo. O sentido está em volta de você. O tempo inteiro.

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Marcela Picanço
Atriz, roteirista, formada em comunicação social e autora do Blog De Repente dá Certo. Pira em artes e tecnologia e acredita que as histórias são as coisas mais valiosas que temos.

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