Como definir o sublime? Uma conversa com Nara Rúbia Ribeiro

Por Josie Conti

Como definir o sublime? Quais as palavras que fazem jus ao que não nos é palpável? O poeta é o tradutor de sonhos. É aquele que faz desabrochar a imagem do que antes jazia apenas em sentimentos.

Assim são os poemas e outros escritos de Nara Rúbia Ribeiro, poetisa goiana que vem se destacando cada vez mais no território nacional devido a qualidade e sutileza de seu trabalho.

Abaixo, uma entrevista com a escritora abre-nos algumas portas para o conhecimento daquela que está por trás do que é dito.  Para emoldurar a entrevista, selecionamentos alguns de seus poemas e telas do pintor americano Daniel Gerhartz.

Nara, na primeira vez em que entrei em contato com seus poemas (na época só conhecia os poemas), o que mais me chamou a atenção foi a relação ímpar que você tem de visualizar a vida com abstrações, coisa rara hoje em dia. Como você entende o excesso de concretude do mundo atual e a dificuldade que as pessoas têm de compreender conteúdos mais subjetivos?

Eu não entendo. (risos) Eu acredito que as pessoas se distraem da vida real, que é abstrata, etérea, eterna, contemplando o efêmero, o passageiro, o transitório, nessa pressa cotidiana que nos leva sempre a querer ter o que não temos, fazendo com que nos esqueçamos de ser quem realmente somos.

De fato algumas pessoas lidam com maior dificuldade com a abstração poética. Na verdade, o poema, penso, seja uma fotografia da alma do escritor, sob o impacto de determinada inspiração. O leitor vê essa fotografia e a interpreta, tecendo paralelos com a sua própria alma, com sua própria verdade interior. É um exercício de grande prazer e de autoconhecimento, mas muitas vezes permitimos que o pragmatismo cotidiano nos furte o tempo necessário para essas viagens.

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Daniel Gerhartz

SEDE


Não é a água
Que me dá a vida;
É a sede.

Já não podes ser a fonte
Que sacia e reabastece
O lago profundo
Que sou.

És minha sede.

Sei,
Teu peito encerra vasos alados
Transbordantes de sonho e de azul.

Mas
É no calor dos teus lábios
Que sinto gosto orvalhado do sol.

Quando surgiu a sua paixão pela poesia e que escritores são suas maiores influências?

Ainda na infância. Sempre gostei de buscar a origem da palavra, o seu nascedouro, a sua composição, o seu significado primeiro. E também sempre brinquei de dar novos significados a essas palavras. Nisso, para mim, sempre houve grande encantamento.

As maiores influências, acho, foram os escritores que “namorei” (e ainda namoro). Penso que o primeiro grande amor poético tenha sido Fernando Pessoa. Mas amei Drummond, Bandeira, Castro Alves em sua visão abolicionista, Guimarães Rosa – cuja poesia permeia toda a sua prosa, amei o Manoel de Barros e também Mia Couto. Todos estes fazem parte de um pedacinho de mim. Pude senti-los, sentir-me neles, sentir a partir deles. Ampliaram-me a concepção do mundo e dos meus mundos interiores. E esse aprendizado é sem preço.

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Dawn of Hope- Daniel Gerhartz

Sabendo que você é goiana nascida no interior e hoje residente na capital, como você considera a influência regional em seu trabalho?

Bem, eu acho que para que sejamos cidadãos do mundo, ou, como sempre digo, cidadãos de um tempo, precisamos ter um quintal onde as nossas raízes possam se aprofundar e expandir. Goiás é esse quintal, para mim. O povo goiano é a minha referência primeira de humanidade. Gente verdadeira, simples, cordial. Temos uma ligação muito grande com a terra, com nossos rios, em especial o Araguaia. Nossa música, notadamente a sertaneja, é uma música muito sentida e, em boa parte do repertório, tem conteúdos bem ricos e poéticos. Aqui também diversos escritores me inspiram muito. Como José J. Veiga, Cora Coralina, Gilberto Teles, Gabriel Nascente (só para citar alguns entre os diversos a quem admiro).

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Grace-Daniel Gerhartz

EXPIAÇÃO

Minha alma tem rasgos
Tem vergões
das chibatadas do tempo.

Tem espaços não visíveis
doloridos de silêncio.

Tem incertezas tão certas.
Veredas abertas
e vontades invencíveis
que não nasceram ainda.

Tem desconfianças
de que o sonho é findo,
mas reinventa o meu céu de utopia
que todo o não crer
expia.

Diversos poemas e textos também apresentam fortes traços de espiritualistas. Como você entende a relação
do homem com um ser maior?

Sim, fortes traços. Eu acredito na existência de um Ser supremo, verdade universal e imutável de todas as coisas. Essa Luz infinita é maior do que todos os nomes, mas, por ser poeta, eu chamo essa inteligência sensível de Poesia. Eu vejo Deus como a poesia que cria, circunda e permeia todas as coisas. E nós somos uma centelha dessa Luz. Somos versos inacabados, talvez ainda rascunhos de um poema divino. Ele nos escreve por nossas próprias mãos, no nosso labor pessoal e contínuo a serviço do Bem, sobre as linhas da Eternidade. É assim que eu me sinto.

Há mais de 3 anos você administra a página oficial do escritor Mia Couto no Facebook. Mesmo tendo o reconhecimento do autor, percebe-se um alto grau de exigência do público com relação ao seu trabalho. Como tem sido essa experiência?

A Página Mia Couto é uma enorme alegria. Ela me obriga a ter, diariamente, contato direto com os escritos do Mia. E isso é uma dádiva impagável. As pessoas que frequentam a página, em sua grande maioria, são poetas. Poeta é tanto aquele que escreve, quanto aquele que se alimenta da poesia escrita por outrem. Não são exigentes, apenas têm bom gosto e já se habituaram à beleza das palavras do Mia e das imagens ali contidas. Bem como com a relevância das temáticas ali abordadas.

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Daniel Gerhartz

Mulher, mãe, advogada, professora e escritora. Como esses papéis influenciam em sua rotina e temática? Seria a escrita uma espécie de universo paralelo frente a uma profissão onde as mazelas humanas são rotina de trabalho?

Acho que existe dentro de nós um local de serenidade, de onde contemplamos a nós mesmos. Eu me sento nessa minha paisagem interior e me observo. Meus sonhos, meus medos, minha dor diante da dor do mundo, meu encantamento, minha alegria. Então, tudo influencia. Afinal, eu me contemplo e me observo em todas essas situações. E a poesia é o meu retrato íntimo diante dessas mazelas e de todas as demais vivências minhas.

Você já pensou em trabalhar exclusivamente com a escrita? Como vê o mercado editorial nacional?

Pensar, eu penso. Acho que é um projeto interessante de vida, mas ainda muito distante da minha realidade atual. As editoras têm buscado um caminho mais seguro, em termos de mercado. Em sua maioria, prefere publicar trabalhos de pessoas que já tenham renome, uma vez que, sem esforço editorial, o livro será mais facilmente vendido. Isso tem dificultado o surgimento de novos nomes na literatura nacional e, penso eu, fará com que diversos escritores atuais sejam descobertos pelo grande público apenas daqui a muito tempo.

SEM PELE

A alma de toda a gente tem cercanias.
A minha, não tem.
É um descampado.
Não tem telhado, não tem paredes.
Muitas vezes, nem chão.

E sinto no peito as encostas
de tudo o que sangra e corrói.

Também toda a beleza me visita sem licença
E a poesia de tudo me acontece.
Mas a beleza, não raro, ela fere.
As garras de um beija-flor podem ser mortais
A uma alma sem pele.

Então, por isso, às vezes me exaspero e grito
Para que o meu peito,
Em desabrigo,
Não seja tão violado.

Mas quando me sai o protesto,
Minhas palavras também me sangram
E morro mais um tanto por dentro.

Já não quero a palavra que afugenta a dor.
Quero o silêncio que cicatriza a ferida
E que me prepara para a dor mais forte:
A própria Vida.

Onde é possível encontrar o seu trabalho e outros escritos? Quais os projetos atuais?

Eu publiquei apenas um livro de poemas, chama-se “Não Borboletarás”. Restam poucos exemplares. Foi publicado em edição festiva do município de Goiânia. Tenho praticamente terminados outros três livros. Um de poemas infantis: “Pedacinhos de Poesia”. Estou finalizando um livro de poemas chamado “Pazes” e outro de contos denominado “Nas quinas do quintal do mundo”. E acredito (não custa acreditar, não é mesmo!), que estes três serão publicados agora em 2015.

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Daniel Gerhartz

OBSERVATÓRIO DO MEU ANJO DA GUARDA

Meu anjo anda meio cansado.
Sentou-se ao pé do meu leito
E dormiu.

O tempo apiedou-se dele
E parou a contagem das horas.

Estática,
Parei de validar os medos.

Um anjo que dorme
Vale mais que mil anjos de pé:
Meu anjo da guarda não vela
O meu anjo
Sonha por mim.

 

Daniel Gerhartz– página oficial

Escritos de Nara Rúbia Ribeiro

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Josie Conti
Blogueira e empresária. Após trabalhar anos como psicóloga, abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais. Hoje, a Josie Conti ME e sua equipe trabalham prioritariamente na internet na administração funcional, editorial e publicitária de redes sociais e sites como A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil, além de várias outras fan pages que totalizam cerca de 6.5 milhões de usuários. É idealizadora da CONTI outra, o projeto inicial que leva seu nome.



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