Coleção de saudades

Sou colecionadora de saudades.
Estão todas arquivadas em mim.
Há um acervo incrível com formas e tamanhos variados.
Vez ou outra, surpreendo-me, simplesmente, sentindo cada uma delas…

Saudade estranha da minha avó que não conheci.
Saudade gostosa da minha infância feliz.
Saudade boa da solteirice e das baladas com as amigas.
Saudade orgulhosa da minha formatura.
Saudade melancólica da minha festa de casamento.
Saudade imensa da minha barriga grávida.

Saudade deliciosa do primeiro encontro com meu filho.
Saudade prazerosa da amamentação.
Saudade doída do meu corpo sempre saudável.
Saudade cruel do meu corpo antes do câncer.
Saudade profunda do meu mundo longe da morte.
Saudade inquietante do segundo filho que não veio (e que não sei se virá).

Saudade aflita da casa cheia de crianças e cães que eu tinha planejado.
Saudade arrebatadora da vida que eu tinha sonhado.
Saudade descontrolada de quem eu fui.
Saudade apertada do que se foi sem ter sido.
Saudade cortante da despreocupação.
Saudade intensa das minhas próprias saudades.

Sou feita de saudades.
Saudades do que foi e do que nunca vai ser.
Saudades do que poderia ter sido, mas pode não ser mais.
Mas a saudade que mais gosto de sentir é aquela que só sentirei amanhã:
Saudade do dia de hoje.
Que o hoje seja digno de ser lembrado, saudosamente, amanhã.
Que a saudade seja sentida!

Por trás dela tem sempre algo que vale a pena recordar.
Cada saudade esconde um sorriso.
Cada saudade nos transporta a outro lugar, em outro tempo.
A saudade é mágica!

Faz a gente ir e voltar num piscar de olhos.
Saudades reais nos levam a um tempo passado, em que tudo foi.
Saudades fictícias nos levam a um tempo hipotético, em que tudo poderia ter sido.

Mas, triste mesmo é uma vida sem saudades.
Sem faltas do que passou.
Sem lástimas do que poderia ter sido.
Sem coisa alguma que encha o coração de ternura.
Prefiro minha vida assim: acumulada de saudades sem fim.
Saudades que mal cabem em mim, mas que me preenchem e me definem.

Saudades que me acompanham e que me compõem.
Saudades que, unidas em minha coleção, formam minha própria identidade.
Saudades que me são.
Saudades que me serão.
Até que eu mesma me torne uma saudade.
A saudade imortaliza as pessoas.

Enquanto eu for lembrada com carinho, viverei, ainda que esteja morta.
Vivo empenhada em deixar saudades.
Do contrário, estaria apenas sobrevivendo.
Vivo desejando permanecer viva em uma saudade.
A saudade é minha garantia de vida eterna.
A saudade é meu passaporte para o paraíso.

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Grasiela Bernardes
Educadora com formação em Letras Português/Inglês e foquei minha carreira na alfabetização durante quinze anos. Porém, um câncer de boca (localizado na língua) me afastou da sala-de-aula e me fez descobrir o dom que adormecia em mim: a escrita. A doença me deu tempo e uma história para contar. Resolvi registrar no papel como o câncer me curou, transformando-me em alguém melhor. Assim nasceu o livro Impactos do Câncer, que foi lançado no final de 2015. Desde então, sigo escrevendo sobre o que meu coração manda, porque sinto que é essa a contribuição que sei deixar para o mundo.



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