Cisma

Se me ponho a cismar em outras eras…
Florbela Espanca

Que perfeição é o ninho de uma pomba!
Os gravetos são tramas perfeitas que suavizam a aspereza dos galhos, dispostos em círculos, formando um côncavo. Tudo muito instintivo e com um único propósito: acolher novas vidas e assim perpetuar a espécie.

E o ser humano, essa criatura, que tem consciência de sua existência, razão e sentimentos, como cuida dos seus, como os recebe?

O colo e os braços de seus pais, os beijos dos avós são ninhos; continentes seguros para a vida que chega e se desenvolve.

Todavia, pergunto: há ninho para quando se está partindo; quando uma vida se exaure; quando se vive o último ciclo?

Como serão os braços, ouvidos e mãos que contêm o peso de uma vida?
Será a bengala o apoio mais certo ou mãos sépticas e cuidadosas que desconhecem a história daquela vida?

Os seres humanos conscientes e responsáveis começam (quando possível) a se preparar na maturidade para a velhice, em termos financeiros.

Porém, não é desse ninho que falo e, sim, daquele que alimentará a alma do idoso em seu último ato. Terá a companhia dos seus e algum desses entrelaçará suas mãos com a dele?

E aqueles que já partiram de coração e, por alguma razão, o corpo ainda não se deu conta e resiste tacitamente? Terão algum acolhimento? E de que natureza?

Será o ninho um recanto de aconchego somente para a vida nascente e prematura e que, com o tempo e com o peso, vai se desmanchando?

Se assim for, como viver a ausência de um continente seguro e confiável no momento em que não há mais forças para ficar e nem partir?

Cabeceiras frágeis ou inexistentes em vidas sedentas de respaldo caem no vácuo.

Assim é a vida?

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Eliete Cascaldi
Psicóloga , escritora e avó apaixonada pelo seu neto e pela vida. Autora do livro "Varal de sonhos" e feliz demais com os novos horizontes literários que se abrem.



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