Chuta que é macumba

Confesso que acho graça nesta expressão, toda vez que a leio nas historinhas da Mônica e do Cebolinha. Mas fico um pouco intrigada com a quantidade de anúncios que vejo colados em postes ou pendurados em faixas pelas ruas. Muitas são as promessas para trazer de volta o amor de alguém. “Trago seu amor de volta em sete dias. Pague somente depois.” e por aí vai.

Sou realmente adepta à tolerância entre religiões e minha maior e mais positiva surpresa em relação a isso eu vivenciei na Alemanha, na cidade de Saarlouis. Lá, frequentei, por pouco tempo, uma igreja evangélica que, no final de seu culto, sempre transmitia com carinho os convites e avisos da igreja católica da cidade. O pastor fazia aquilo com motivação. Achei muito nobre. Algo que, em toda a minha vida, eu só vi nesta igreja: uma religião fazendo boas menções a outra.

Também convivi, na Alemanha, com vários muçulmanos e percebi claramente a crença de que, para eles, os de sua religião são serão salvos, enquanto os demais são considerados perdidos. Algo que outras religiões também pregam. Para muitos, deve ficar difícil saber qual delas é a certa, já que tantas dizem a mesma coisa sobre as demais.

É, no mínimo, interessante o convívio com diferentes religiões. Todos acreditamos em um Deus, um céu, anjos, almas ou espíritos. Exceto pelos ateus. Gosto de pensar que, no fundo, é tudo a mesma coisa e que todos seguiremos evoluindo. Não consigo ver um Deus que olha para uns e esquece o resto. Mas, enfim, respeito os que veem de outra forma.

Porém, independentemente de religião, volto ao primeiro tópico: a macumba. O que me intriga não é a religião por trás do ritual, mas a motivação de pessoas, iguais a mim, de conseguirem as coisas ou pessoas através de rituais religiosos.


Certa vez, conheci alguém que afirmou ter pago oitenta mil reais para sacrificar uma vaca, em um ritual do tipo para alcançar algo maior no trabalho. E, até onde esta pessoa relatou, ela realmente ganhou muito mais do que o valor do sacrifício do animal.

Pergunto-me que valor existe em se conseguir o amor de alguém ou o sucesso no trabalho através de magia ou rituais e não por esforço próprio? Eu não consigo entender muito bem a aceitação de um amor que vem por um ritual pago e não pela pessoa que se é. E também me questiono sobre a durabilidade de tais conquistas.

Quantas mulheres casadas fazem macumba para terem a fidelidade de seus maridos? Quantos desempregados pagam pelo ritual, em busca de um trabalho? Quantos mal intencionados fazem a tal para prejudicar outrem? Quantos indivíduos buscam a conquista de um ser amado desta forma?

Muitas já foram as histórias que ouvi. E confesso que não entendi. Imagino que haja muita energia envolvida no assunto, mas ainda acredito no “o que deve ser será” e em que não há macumba ou sacrifício que resista às vontades da vida, do poder maior dentro de cada um de nós e do famoso destino. A vida, por si só, já é mais.

Eu nunca fiz macumba. Se fizeram para mim, não sei. Vivo a minha vida fazendo o melhor que posso, buscando sempre o melhor de mim mesma. E espero, com o que sou, atrair o melhor de alguém, não por magia ou ritual, mas por atração e afinidades. Gosto de pensar que alguém vai ficar comigo pelo que sou e por bem querer. Nada mais.

No mais, a gente colhe o que planta.

Amor que é pago, um dia manda a conta…

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br

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