Chove neste domingo

Chove. Chove no domingo. Chove muito neste domingo.
Chove porque quero e também porque preciso que chova. 
Chove muito: por dentro e por fora de mim.
 
A gota que cai é a mesma lástima que respingo.
A lágrima que cai é a mesma chuva que lá fora se faz – gotas parecidas, motivos distintos.  Chove muito neste domingo. 
E assim eu o precisava.
 
À medida em que me intensifico, intensificam-se as gotas – para fora de mim. Em lágrimas, e rua, caindo, estreitas assim. 
A chuva lava minhas impurezas – porque também erro no amor (e admito).
 
Lava a mim. Lava a meu ser, minhas dores, meus receios e anseios.
A chuva que cai fora de mim é a chuva que eu preciso que caia. 
 
Deixo para com ela tudo o que não fui, tudo que não disse, tudo que não fiz. Toda oportunidade que adormeceu. Tudo que não compreendo: afinal, às vezes não compreendo nem a mim ou às nuvens chuvosas presentes em dias ensolarados. Ela vem e se intensifica, e quão mais forte se torna, mais sereno me comporto. 
 
Vou sentindo este manto, este velcro, este torpor. 
Sinto alegria e amenismo, esta hipérbole dentro de um senhor.
E também envelheço!
 
Acalmo-me quando a chuva se acalma. Vou-me quando ela se vai.
O banho não é de desígnios, mas de alma. 
 
O estalar das gotas no chão ecoa e seu barulho simboliza o término de cada emoção que a gota representa. 
Mimetismo e analogia.
Animosidades e desígnios. 
O estalar das gotas pontua-me.
Me leva.
Me lava.

Alexandre Bonilha

Alexandre Bonilha é advogado, poeta às vezes e filósofo – quase – sempre, aprecia o “CONTI outra” desde quando começou.

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