“A graça natural de uma sociedade sem grades”, uma crônica da moçambicana Hirondina Joshua

Título original: “Chapa- sem falas”

Hirondina Joshua

O chão foge debaixo dos pés. A pressa torna-se a melhor companheira.

São sete da manhã; mas é como se ainda fosse madrugada nas cabeças da gente que tortura os dias para esquecer a fome.

Apanhar o chapa é mais difícil que ir à pé, pensei. Mesmo que esta verdade não constitua a realidade.

– ” Xipamanine-Praça dos Combatentes”

-Uma voz gutural anunciava.

Depois de muitas horas de luta, finalmente entro no chapa, a primeira coisa que procuro é sossego.

“Saia daqui. Se não queres ser tocada, por que não sobes o teu carro?”  Alguém reclamou muito nervoso.

Calei-me os nervos para não arranhar a razão.

Há muita coisa nesta vida de que se pode e deve reclamar: menos dos cheiros que há num chapa. Ali vale tudo; uma dança de cheiros sem fim.

Encosta não encosta, pisa e não pisa, ali a regra é outra: ser-se servo da incompreensão.

Na paragem seguinte, sobe uma senhora e em voz alta fala com o motorista:

“João uhu bom?! Há quanto tempo. Pensei que não era mais você esta via.”

O silêncio reinou naquele espaço, fez Vida e luz na curiosidade roubada dos viajantes. Todos admirados com a fala da senhora.

Era atraente e todos queriam saber como ela conseguia se expressar daquele jeito tão particular, próprio das coisas diferentes.

E o motorista responde segurando a boca para não soltar uma gargalhada mal-educada:

“Isso é impossível. Esta via me dá sorte dona Luísa.”

Estendi os ouvidos para o ferro que separava as cadeiras de trás, queria enganar a distância com a conversa alheia.

Nesse dia, não era sobre política nem desporto… diálogos típicos de um chapa.

Era sobre sexo.

Alguém que mal dormiu resolveu fazer aula no chapa.

Um rapaz a descrever de forma pouco educada as “maçãs” que já experimentara. É verdade, para este assunto há indisciplina mesmo com arranjos gramaticais, figuras estilísticas e singulares entoações vocais.

Será que devemos dizer tudo e a todos e em todo lugar? Modos, moldes e opiniões habitam em cada um de nós. Mas certamente não seja esse o mal. Certamente o mal haja na própria acção de termos que nos encontrar sem dar por isso em nós.

Mostrando-nos em primeiro lugar, a nós próprios, rostos anónimos e, dando aos outros as suas reais aparências.

Um refúgio para os que querem desabafar com desconhecidos sem riscos correr de ver as suas vivências publicadas a terceiros.

Um esconderijo bastante rijo. Gozamos da autonomia da fala completa: diz-se tudo sem se olhar a quem.

A graça natural de uma sociedade sem grades, o Tempo a acontecer, as pessoas a fruírem o que a sua suposta liberdade lhes traz e trai.

No chapa há Vida sem tabus nas vidas dos passageiros. O verdadeiro domicílio de uma parte da sociedade flutuante.

Vincent Dirckx


Hirondina Joshua

HIRUNDINANasceu em Maputo, Moçambique, a 31 de Maio de 1987.
Está integrada em várias antologias, revistas, jornais, sites, blogues nacionais e internacionais. Teve Menção Extraordinária no Premio Mundiale di Poesia Nósside 2014.

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