Carta para Picasso

Caro, Pablo Picasso,

Ontem eu fui na montagem da sua exposiçã no CCBB, aqui no Rio de Janeiro. Não sei se você já teve chance de conhecer essa cidade, mas ela é linda. Acho que você teria se inspirado bastante aqui. Eu me inspiro, pelo menos. Sua exposição se chama Picasso e a Modernidade Espanhola e a abertura vai ser amanhã, dia 23 de junho e vai durar até 7 de setembro. São 45 quadros seus, entre desenhos e esboços e mais 45 de outros artistas tão incríveis quanto você, afinal todos eles tiveram influência sua. Salvador Dalí, Joan Miró, Óscar Domínguez, Antoni Tàpies e Juan Gris, são alguns exemplos.

Eu vi seus quadros sem aquela maquiagem de luzes, que fazem bastante diferença em uma exposição. Vi eles apoiados com cuidado no chão, vi os cálculos que fizerem para ele ficar no local certinho da parede. Foi a primeira montagem que eu fui na vida e percebi o trabalhão que dá cuidar de todas essas obras que valem milhões. Muito cuidado com tudo. Eu passava e as poucas pessoas que estavam lá entre imprensa, restauradores e produtores, todos olhavam pra mim querendo saber o que eu fazia lá. Queria dizer que eu não fui fazer nenhuma reportagem jornalística sobre a exposição, mas que eu tinha ido te conhecer e escrever sobre esse encontro. Confesso que gostei de ir crua, sem esperar por nada, sem saber exatamente o que cada obra falava. Ainda não tinha aquela plaquinha que explica e conta em que período da vida você estava. Era só eu e você, sem traduções. A assessora que me acompanhava segurava um papel com a explicação de algumas obras, mas não vejo a menor graça em saber sobre a obra antes dela mesma se apresentar. Eu e a tela. Existe uma relação ali entre o artista e o público que não pode ser explicada em palavras.

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Eu não queria nem saber de movimento artístico, apesar de você ser o precursor do cubismo, pra mim, isso tudo é superficial em comparação ao que seu trabalho causa nas pessoas. Todo mundo ali te via como um objeto valioso. Não estou criticando o mercado da arte, que hoje se transformou em um mercado de luxo, (acho que você sabe muito bem disso), mas quando o valor do quadro se sobrepõe à mensagem, acho que alguma coisa se perde. Arte pra mim é tipo mágica. É uma das formas mais genuínas de transformar um pensamento, transformar as ações das pessoas, mexer com o interior delas. Você me transformou ali, de alguma forma. Foi uma troca e eu quase pude ouvir os ruídos daqueles mil personagens misturados.

Quando eu olhei os esboços e desenhos, fui percebendo que esses personagens apareciam de novo em outros quadros maiores. O cavalo, a mulher triste, o minotauro. Não sei se eles queriam dizer alguma coisa, não sei se você queria que eles simbolizasse algo, mas ninguém poderia me dizer isso além de você. As vezes um desenho só quer dizer exatamente aquilo ali. O resto é especulação. Por isso não importa o que você queria dizer. Pra mim, me interessa o que eu senti ao ver aquela cabeça de cavalo com olhar angustiado querendo sair do quadro. Querendo viver. Não sei se era você ou se representava o povo sofrendo um bombardeio, mas sei que minha garganta fechou e ao mesmo tempo que tive vontade de rir, tive vontade de chorar porque um ser inanimado, sem som, sem movimento me causou algo tão forte. Fazer o quê?

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Conversei com o curador da sua exposição e percebi que ele foi a melhor pessoa que poderiam ter escolhido. O nome dele é  Eugenio Carmona, historiador e professor de História da Arte da Universidade de Málaga, na Espanha. É uma pena você não ter conhecido ele. Aposto que virariam amigos, porque, apesar de não conhecer bem nenhum de vocês dois, acho que vocês têm algo em comum. Ele também é um dos membros do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de onde a maioria das obras da exposição vieram. Eugenio me explicou que no CCBB do Rio ele teve mais espaço para fazer a exposição do jeito que ele imaginava.

Pintou as paredes de várias cores diferentes e decidiu começar a mostra com seus esboços e desenhos. Assim, o público vai identificando as figuras nos próximos quadros. Depois vão aparecendo os outros artistas e assim fui percebendo sua influencia em todos eles. Teve até um quadro do Dalí, o Arlequim, que jurei de pé junto que era seu. Eugenio me explicou que a cor de cada sala representa um momento diferente e fez isso para que o publico percebesse que cada sala deve ser vista com novos olhos. A cada cor de parede diferente as obras têm algo em comum que as unem. Por exemplo, na última sala, a laranja, o que une cada obra é o fato de todas representarem algo sobre a natureza.

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Perguntei pro Eugenio se ele também era artista, por ter esse olhar profissional e sensível sobre arte. Ele me disse que não, porque se fosse artista ele não conseguiria separar sua percepção sobre a arte. Ele tentaria sempre impor ao público a sua visão e isso não seria justo. Disse que para ser curador é melhor ser um historiador, um entendido sobre o assunto e assim todo mundo tem uma visão mais clara de cada artista que está sendo exposto. Você não acha isso fantástico, Picasso? Em um mundo onde todo mundo quer impor a sua opinião, ele prefere criar oportunidade para que os outros criem a sua própria. Imagino que você gostaria de saber isso. Tem alguém se importando com a sua arte, tem alguém que sabe o poder transformador que ela tem. Seus trabalhos valem milhões e acho justo que seja assim. Só não quero que os personagens dentro desse trabalho morram junto com a superficialidade mundana. Quero que esses personagens sejam vistos de formas diferentes entre o público, porque não adianta nada se não for assim. Arte é um reflexo. E acho que você concorda comigo nesse ponto.

Com carinho,

Marcela.

Leia também a Carta para Kandinsky.

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Marcela Picanço
Atriz, roteirista, formada em comunicação social e autora do Blog De Repente dá Certo. Pira em artes e tecnologia e acredita que as histórias são as coisas mais valiosas que temos.



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