Carta de um perdão pendente

 

Dia desses eu te vi com olhos de sal. Aperto no peito, foi tudo o que senti, clichê sentimento, tudo o que resta? Não sei, mas percebi que não consigo te perdoar ainda, embora compadeça das suas rugas, desse sal que tomou suas águas, depois de tudo, não foi bem erro, seu ou meu, de quem? É só a vida que caminha entre amores e mágoas. É só a vida… cheia de perdões por tecer com o tempo. A vida cheia de reviravoltas que enjoam os que tem consciência e não beneficia ninguém. A vida cheia de voltas que nos fazem encontrar quem deixamos rindo enlouquecidamente perdida curtida em águas salgadas.

Você delirava, falava de lagos azuis que lhe convidavam, de olhos de água, de futuros ornados, de mares de rosas e espinhos emborrachados. Falava da vida como se ela fosse as ficções que lia e assistia. Não se enxergou na realidade sombria em que se afogava. Por pouco não foi Bovary. Pensava ser Julieta. Querida, eu tentava avisar, no mundo não havia impedimentos de qualquer natureza, o que não se realizava era só porque não era recíproco. Você estava se envenenando sozinha contra um mundo que, se te afastava do amor era por ampla cultura hostil e não por figuras específicas.

Sua paranoia desenvolvida diante de cada pequena frustração te afastou da minha influência. Desconfiada de todos, desconfiada mesmo de mim que nunca lhe faltei assistência mesmo quando sua inocência me lançava em rasteiras, acabou por isolar-se e destruir uma por uma de suas pequenas construções, recomeçadas há tão pouco. Pareciam tão certas, tanto trabalho, tanto esforço. Eu realmente não consegui entender. Um desespero egoísta tomou suas mãos construtoras. Me pergunto ainda se em algum momento você se pegou refletindo sobre quantos sonhos alheios, sobre quantas apostas distintas você carregou com a sua decisão. Perdeu a crença.

Desmantelou a crença que te depositaram. Acusou quem acusava. Pode ser que em algum ponto você estivesse certa, entre tantas vírgulas que a vida fecunda. Você poderia ser sem ponto, mas poesia moderna em linhas renascentistas… – faltou malícia, faltou encontro, faltou assumir-se em vez de se entregar ao abismo. Foi se afundando no vazio a cada esperança rompida. Eu tentei te proteger, algum equilíbrio, poderia ser com o tempo ou nunca, mas você insistia que fosse logo e que fosse de qualquer forma. Havia alguma verdade que você enxergava que poderia até ser, mas, querida, que verdade nesse mundo? Dizer isso às alturas, denunciar as belezas escondidas no alheio, querer impor aceitação a quem se esconde? Perdeu os limites entre a sabedoria e a loucura. De todos os segredos que lhe revelei e você tentou gritar aos quatro ventos, achando que tudo se resolveria, encontrou apenas humilhação. E quantos carregou consigo? Eu, certamente. Perdão, eu consigo?

Assumo que sempre tive certa condescendência com os seus excessos egoístas. Tivemos momentos de paz como nunca nos últimos tempos, pensei até que tivesse amadurecido, penso mesmo, nesta altura, que amadureceu às duras. Agora te vejo em ressaca de águas salgadas, o sal na pele, o sal nos olhos, o sal nas feridas, o sal que não lhe permite mais pensar em lagos de água doce que te convidam. Seu nome está fora das listas. Talvez nas listas de espera… Eu poderia, fosse outra que não eu, confundir minha empatia com perdão, confundir-me pela compreensão e correr logo ao seu encontro. Mas, houve tanto. Eu te observo de longe e tento anteceder seus passos. Tenho receio, mas é inevitável que viremos a nos encontrar, na verdade, nunca deixamos de nos cruzar por aí. Eu tenho te evitado a esmo, mas a vida sem você é vazia. Essa maluquinha que dá cor e poesia às “pequenices” cotidianas.

Eu gostaria que o perdão em mim fosse mais eloquente que metódico, que pudesse simplesmente esquecer e te abraçar. Mas não sou feita dessa matéria, e você mesma a mim é meio arredia. Assim, aguardo pacientemente o momento de nossa reconciliação e espero, por bem, que do zero no qual novamente nos encontramos e por todas as batalhas que juntas enfrentamos, possamos unidas nos reerguer e seguir por novos caminhos. Pois sei inequivocamente, com a minha crueza de natureza, que é difícil caminhar quando não sentimos os pés com o coração. Eu não consigo continuar sozinha – ser Razão sem Emoção.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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