Autenticidade sim, por favor!

Palavra da moda em redes sociais, autenticidade não é de verdade para muitos. Ou se tem ou não. Não existe meio-termo. Se é autêntico ou não é. E acostume-se com isto. Até porque, não há obrigação de ser. Cada um é o que é. E o que se quer. Ao menos é assim que deveria ser.

Na sociedade em que vivemos, ainda engatinhamos lentamente para um mundo onde cada um é aceito do seu jeito. Justamente por isso, pelo excesso de preconceitos aos quais estamos acostumados a conviver desde sempre, é que a maioria das pessoas acaba por tentar se encaixar nos maiores grupos do que em si mesmas.

Se na escola todos usam roupa verde e tênis azul, é natural que a maioria dos adolescentes deseje usar as mesmas cores de vestimenta e sapatos. Se um deles chega de laranja e roxo, logo deverá ser excluído e ou enxovalhado pela maioria. Há de se ter muita personalidade para permanecer fora do grupo neste quesito e ainda não se incomodar com as críticas e gozações.

Mas este exemplo não serve apenas para a vida infantil ou adolescente. Na vida adulta também é assim. Se a maioria critica uma determinada atitude ou pessoa, acaba sendo natural que a maioria se adeque àquela questão. Muitas vezes até de forma inconsciente, quando o medo de ser diferente ou de não ser aceito é maior do que a noção de identidade própria, de quem se é de verdade.

Ser autêntico nem sempre é ser diferente. Ser autêntico é ser quem se é, não importa onde e nem quando. Se gosto de ficar em casa lendo livros enquanto todos os meus amigos saem para balada, então fico em casa e não me importo com o que os meus amigos fazem. Se todos bebem e eu não, então não bebo. Se tenho cabelos cacheados e não quero fazer progressiva, não faço porque todas as minhas amigas fazem. E assim por diante.

Deveríamos viver numa sociedade onde todos se aceitam como são, mas isto está absurdamente longe de ser verdade. No mundo real somos julgados o tempo todo: pela roupa, pela aparência, pelos costumes, comportamento, poder aquisitivo, nível intelectual e gostos pessoais como time de futebol, músicas e livros preferidos.

Não é certo afirmar que todos somos obrigados a gostar do que os outros gostam. Para esta questão falaríamos de afinidade. Não gosto de futebol, mas respeito quem gosta. Mas também não me sinto obrigada a participar de fã-clube algum para não ser chamada de intolerante. Há de se ajustar os parâmetros entre aceitar o que não gosto e me permitir a falta de afinidade com tal assunto.

Autenticidade é simplesmente o fato de conhecer a si próprio, aceitar quem se é e agir de tal maneira com quem quer que seja e seja onde for. Numa sociedade de alto índice de intolerância, ser autêntico é quase que um ato revolucionário. Por mais “certinho” que se seja, sempre haverá alguém a criticar. E vice-versa. Nunca existirá uma situação ou alguém que jamais seja criticado ou julgado.

Dentre tantos que nos apontarão o dedo sem o mínimo de piedade e consideração, vale lembrar que agradar a si mesmo é o que importa para uma sincera realização pessoal.

Autenticidade, num mundo onde a maioria age como juíz, não é apenas um ato de coragem, mas de liberdade e profundo amor-próprio.

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Carolina Vila Nova é brasileira. Tem cidadania alemã, 40 anos. Escritora e Roteirista. É autora dos seguintes livros: “Minha vida na Alemanha” (Autobiografia), “A dor de Joana” (Romance), “Carolina nua” (Crônicas), “Carolina nua outra vez” (Crônicas), “Vamos vida, me surpreenda!” (Crônicas), “As várias mortes de Amanda” (Romance), “O dia em que os gatos andaram de avião” (Infantil), “O milagre da vida” (Crônicas) e "O beijo que dei em meu pai" (Crônicas). "Nosso Alzheimer." (Romance), Disponíveis na Amazon.com e Amazon.com.br



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