Assim como Sherazade, guardamos mil histórias dentro de nós

Começo este texto relembrando resumidamente a história da Sherazade e às mil e uma noites:

Conta a lenda que um Rei mergulhado no rancor e na amargura devido à traição de sua esposa, decidiu vingar-se contra o feminino, casando-se a cada noite com uma nova esposa, à qual ordenaria invariavelmente a sua morte. Mas eis que um dia chega a vez de Sherazade, que provida de um plano arriscado e engenhoso, muda o desenrolar da história.

A cada noite a nova rainha conta uma história encantadora ao Rei, deixando-a interminada ao raiar do dia. Ele, ávido em querer conhecer do desfecho, polpa a vida de Sherazade dia após dia. Passam-se mil e uma noites e Sherazade diz que não tem mais histórias para contar.

Apresenta ao Rei os filhos gerados nesse tempo, os quais ele não conhecia pois estava inebriado pelas histórias da rainha. Neste momento, o rei percebe que não há mais rancor ou desejo de vingança em seu coração e que não poderia mais viver sem Sherazade.

Assim, como o Rei desta história, muitos de nós passamos por momento difíceis de digerir. Traumas, traições, enganos, decepções, ilusões, lutos… uma enormidade de situações pode fazer com que, em algum ou em muitos momentos, nos sintamos dominados por fortes emoções e sentimentos que nos impedem a ação racional ou a elaboração de um sofrimento existencial.

No caso de Rei, a traição de sua mulher despertou nele uma força destrutiva generalizada em relação ao feminino, projetada não somente sobre as futuras esposas destinadas à morte, mas também direcionada aos aspectos femininos de sua própria personalidade inconsciente. A atitude agressiva do Rei impedia qualquer contato com sua própria sensibilidade e com suas emoções, as quais trariam os recursos curativos ao seu coração desapontado. Ao contrário, tal atitude o mantinha destinado a uma ação compulsiva e insaciável de vingança, destruindo também sua própria personalidade.

Mas, ei que surge Sherazade, personalizando as forças criativas do feminino e por esta via, torna-se capaz de transpor as defesas e a unilateralidade do Rei. Através das suas histórias, conduzidas de maneira tão extasiantes e atrativas,ela fazia com que o Rei esquecesse da sua intenção provisoriamente, passando a vivenciar novos interesses e sensações.

As histórias têm o poder de nos transformar. Despertam nossa atenção, nossa capacidade imaginativa, e através delas, nossa disposição para a elaboração simbólica. Elas nos atingem justamente no lugar onde moram nossos sentimentos e nos ajudam na abertura emocional para transpormos nossas dificuldades existenciais.

Se notarmos bem, toda história possui um início que se dirige para um conflito e para o potencial para resolução do mesmo. Geralmente há um clímax, que nos mostra a necessidade de um nível máximo de tensão para a transformação ocorra e o desfecho da história possa ser positivo. Não podemos ficar com histórias sem final, pois não há como deixar em aberto este espaço em nossas mentes. Além disso, toda história tem um herói ou um ato heroico essencial para a resolução do conflito inicial. Ele é o símbolo da nossa capacidade de superação e amadurecimento para lidar criativamente com os múltiplos aspectos da vida.

As mil e uma histórias e a força criativa de Sherazade transformam o Rei e com isso mudam o curso do destino de ambos. Não há mais desejo de vingança, não há mais a morte e a destruição. Há somente o casamento, símbolo da união dos opostos (feminino e masculino) e os frutos, representados pelos filhos.
Alimentados pela saga de Sherazade, nós também podemos encontrar um caminho criativo para lidarmos com nossa própria história, especialmente com nossos lados destrutivos, compulsivos e estagnados.

Toda vida tem uma história, uma bibliografia que lhe traduz os fatos vividos na direção de onde os sentimentos se impuseram na jornada existencial. Tendemos a acreditar que essa história, devido a realidade dos fatos torna-se única e imutável, pois afinal, o que passou já passou, já está escrito, não tem volta.

Mas, se começarmos a fazer o exercício de contarmos e recontarmos nossa história, permitindo que novos enredos (nossos e de outras pessoas) nos reguem a alma, é possível que em algum momento nossa própria história se transforme em outra, não somente com um novo desfecho, mas também com um novo olhar sobre toda a trajetória.

A verdade é que nossa história se modifica e se enriquece a cada dia. A cada fato novo, o passado também se reconstrói. A linha do tempo se alimenta para os dois lados, ligando o que passou ao que virá.

Toda história é uma jornada heroica. É um caminho humano em direção a toda nossa potência criativa e existencial. Ela se modifica a cada passo em direção a maturidade, a cada encontro que nos transforma, a cada ideia nova que confronta as anteriores.

Poder reconstruir e recontar nossa história a cada dia nos anima e nos consola. Nos mostra que as feridas que hoje ainda fazem sagrar e chorar, serão um dia cicatrizes que representarão a força e capacidade de se recuperar e seguir a diante.

Por isso, busquemos todos os dias a Sherazade que habita nosso ser. E se guardamos mil histórias dentro de nós, que elas nos levem a nossa versão final, aprimorada, amadurecida e feliz.

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Marcela Bianco
Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana formada pela UFSCar. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Sedes Sapientiae e em Gerontologia pelo HSPE. CRP: 06/77338



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