Às vezes a vida parece caminhar em círculos, mas a direção é outra

Existem pessoas que, às vezes, por experimentarem uma sequência de fatos aparentemente parecidos com outros já vividos, acham que caminham pela vida apenas em círculos e que por isso, tudo soa como uma repetição incômoda, sem sentido e extremamente cansativa. Nesse círculo aparente, essas pessoas entendem que passam pelo topo (que representa os momentos bons) e, obviamente, que também passam pela base (que representa, logicamente, os momentos tenebrosos). Entre o céu e o inferno, elas passam pelo meio desse círculo, subindo ou descendo.

A velocidade desse trajeto circular nunca é constante, então por vezes a subida é lenta, porém seguida de uma queda muito veloz, ou vice-versa, e é possível supor que justamente nos momentos de queda é que há a percepção (ou impressão) de se estar num círculo, pois sempre vem à mente o pensamento “droga, isso de novo…”. Nos momentos ascendentes tendemos a pensar que estamos saindo de vez do círculo.

Aqui podemos abrir um pequeno parênteses: até este ponto, claramente o texto sugere que a vida em círculos com inúmeros retornos e repetições de situações já vividas é algo ruim. Mas e se as repetições fossem apenas das coisas boas que já vivemos? Alguém acharia isso ruim? Sabemos a resposta, é claro. Então obviamente, ruim é apenas a repetição do que não deu certo. Ok. Sigamos.

Interessante também nesse aparente viver em círculos é que ele não ocorre numa trajetória linear e perfeita, porque isso seria impossível! Na verdade, essa trajetória é feita em um movimento irregular, meio em forma oval. E nessa irregularidade, passamos por locais, pessoas e experiências novas, e por mais breve que seja esse desvio da rota “original” do círculo, ele sempre nos traz uma novidade, um algo inesperado.

Em seguida, retornando ao trajeto do tal círculo, volta-se com algo novo na bagagem que pode até ser imperceptível num primeiro momento ou ser visto como desimportante; contudo, mais à frente essa pequena nova experiência poderá ser decisiva para a saída do círculo ou para uma reação diferente caso se mantenha a mesma direção de antes.

Mesmo que essa nova bagagem não seja decisiva, ela pode servir para anestesiar eventual momento de queda, ou ajudar a compreender melhor o movimento de descida no círculo, ou ainda, funcionar como um farol para caminhos diferentes do atual.

Dentre os vários elementos que definem a essência do que somos, temos 1) as escolhas que fazemos na vida, e 2) as experiências acumuladas. Então é possível melhorar a relação de cada um com o próprio círculo buscando-se por um aguçamento da própria percepção das novas experiências vividas, bem como meditando-se bastante sobre o que elas podem representar, bem como sobre como podem influenciar o futuro.

Como foi dito, às vezes leva um tempo para a pessoa perceber que deu uma pequena saída do trajeto do círculo, e só lá na frente é que um estalo acontecerá e ela se lembrará de algo, e aí sim essa bagagem nova fará algum sentido. Por um lado isso pode ser um pouco desanimador, mas por outro, é sempre uma possibilidade de boa surpresa. Nós quase sempre não damos importância para uma quantidade brutal de pequenas experiências, mas nosso inconsciente não; ele está sempre analisando, maquinando, combinando elementos ou utilizando-os para compreender situações aparentemente incompreensíveis, e de repente ele joga uma resposta no nosso colo, geralmente em momentos completamente inusitados.

Sentir-se num círculo é desesperador e extenuante, mas no fim das contas é uma percepção que nós mesmos criamos para explicar nossos altos e baixos (principalmente os baixos). É incorreta essa percepção, pois cada experiência é única e sempre mudamos um pouco ao fim de cada uma. Logo, é impossível um retorno da vida sob a forma de círculo pois é impossível voltar a ser a pessoa que já se foi anteriormente. Não existe círculo algum pois nossos caminhos seguem unicamente a direção que nossas cabeças apontam e mesmo que ele seja acidentado em alguns trechos, a direção mantém-se a mesma. Nós é que mudamos a cada passo.

Não existe círculo algum. Na verdade, o que existem são dias e noites, estações do ano, humores variados, desejos variados, músicas vibrantes e tristes, pessoas boas, pessoas ruins, pessoas boas passando por momentos ruins, pessoas boas que fazem coisas ruins por serem contraditórias – e todos nós somos. Temos o tempo e temos as mudanças decorrentes da sua passagem. Na verdade, temos nós mesmos, nossas experiências e nossas decisões sobre o que fazer com tudo isso que nos rodeia. Adiante!

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Fábio Moon
Num mundo digital, porém pensando, agindo e sentindo ainda de forma analógica.



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