As vantagens de duvidar de si mesmo

É costume viver um tanto quanto inconsciente de si mesmo. Os “porquês” vão nos deixando com a infância, quando somos curiosos e perguntamos sobre tudo à nossa volta. Mas, curioso mesmo é que, mesmo nesta época curiosa da vida, nos perguntamos mais sobre às coisas à nossa volta do que sobre as coisas de si.

Já parou para pensar em como você respira diferente em certas situações? Em quais são as imagens palavras e sensações que lhe arrancam suspiros? Sobre o que atrai o seu olhar e o que o repele? Quais são seus preconceitos e afinidades? Suas reações às ações que te cerceiam e às que te invadem? Suas incertezas que te travam e as certezas que te movem ou o contrário? E os limites que te decepcionam ou aliviam?

Podemos nos iludir com a ideia de que não se questionar nunca é se aceitar como é, mas, penso mais que não se questionar nunca é ignorar a si mesmo e tornar impossível a aceitação de si. O que somos se não estamos alguém que pode vir a ser mais ou menos diferente do que foi e do que é no momento?

“O senhor… Mire e veja: O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.”

Convite do personagem de Rosa à alegria de duvidar de si, de perceber-se interminado e sempre em movimento. Duvidar de si é se dar a oportunidade de retirar-se daquilo que a si não pertence, mas que carregamos por acidente, distraídos e inocentes das cargas que nos condicionam. Por que alguns adjetivos incomodam e outros adoçam nossa percepção ao ponto de sermos capazes de nos enganar e nos tornarmos manipuláveis pelos elogiadores?

Por vezes a vaidade é tanta que transforma os seus súditos em ovelhas, e lobos sabem elogiar… – Será que precisamos daquilo que achamos que precisamos? Qual a função das coisas que fazemos e como elas nos transformam ou alimentam? Das perguntas de si cada um sabe mais, do que perguntar para encontrar o que é eu e diferenciar do que está eu.

Ter consciência que se livrar de alguns incômodos, de algumas coisas nocivas que adotamos como parte de nós, pode ser tão doloroso e delicado como tirar um bicho de pé, que se infiltra no corpo de forma tão imperceptível, que só percebemos quando está grande o suficiente para incomodar. É fato que ele sempre nos tira um pouquinho do sangue e da carne, mas é sempre menos do que a dor faz parecer que é…Parasitas e pontiagudos invasivos, as vezes carregamos apenas pelo medo da dor de se livrar deles. Carregamos com dores pequenas que crescem. Carregamos inflamações e gangrenas. Quando se dá conta do estrago pode ser que já nos tenham consumido um tanto e percamos mais do que se tivéssemos encarado a dor a tempo. É que nessa substância nossa, de ser-estar, não é tão fácil encontrar os parasitas que, diferente do bichinho do mato ou dos objetos invasivos, não são visíveis.

De tudo que nos ensinam na vida, é corriqueiro não aprendermos a conversar com a alma, com os afetos, com o corpo invisível que nos habita. Nos ensinam a não chorar, a não sofrer, a ignorar – não lidar com a dor é carrega-la e permitir que nos consuma aos poucos. É como abrandar a febre com remédio e nunca descobrir a doença que a causa até o momento da urgência.

Nossas emoções que nos ensinam a reprimir são os sintomas do algo errado, os gritos do eu escondido entre os órgãos, às vezes manifestam-se até nos órgãos, insistem em avisar, mas nos ensinam mais a não sentir, que é feio manifestar dores invisíveis. Pelo descostume não aprendemos a enxergar ou a perceber para localizar os ferrões das angústias.

Às vezes há de se ter a impressão de que aquela dorzinha, aquele incômodo, ou aquela alegria descontrolada, estão é pra todo lado, tão grandes que vão do euzinho pro mundo todo. Pior, vezes outras deliramos com a ilusão de que eles vêm é de fora. Como se livrar do que não conhecemos? Como potencializar o que não nos damos conta que vem de nós e não de outro lugar?

Não somos um todo, não somos completos, não precisamos nos completar – somos cheios de espaços, espaços que se enchem e se esvaziam, espaços que se movimentam, espaços que nos movimentam. Não somos estáticos e quem presta atenção naquela coisa do tempo que muda a gente, sabe, não somos a não ser um pouco aquilo que escolhemos guardar e crescer em nós. Pode-se até virar ao avesso.

É dessa prática de questionar-se que vem o diálogo consigo mesmo, quando como se fôssemos crianças curiosas perguntamos para esse eu quase autônomo e despercebido do nosso ser porque ele é assim ou assado, porque age desse ou daquele jeito e tal. Nesses papos despretensiosos é que podemos descobrir, por exemplo, porque em certos momentos parecemos incapazes de receber o que a vida nos oferece de bom, ou até aquilo que lutamos para ter: aquele desejo desejoso que finalmente se aproxima, mas você se afasta porque o medo da coisa acontecendo é maior… aquela oportunidade que você nunca percebe a tempo… aquela pessoa nociva que você insiste em continuar a procurar e até sofre se rejeitado por ela… é tanto da incoerência e esquisitice do que nos causamos que podemos encontrar nesses diálogos interiores cheios de “?”.

Pode-se ainda encontrar certo deleite, e perguntar-se também sobre o que é bom, sobre o que somos de melhor, e tentar entender como isso funciona para cultivar em outros lugares, para usar transformado em outras situações. O que precisamos mesmo é nos gerir inteiros, para nos darmos ao luxo de deixar desgovernar sem acidentes fatais. Reencontrar nossa “metafísica”.

É certo que não se trata de um diálogo cheio de palavras compreensíveis e frases articuladas. Muitas das respostas que encontramos são silenciosas ou puras de imagens e ruídos incompreensíveis de início. Acabamos por descobrir que não sabemos falar a nossa própria língua. É só na insistência que se descobre.

Cabe desapegar-se da ordem que aprendemos de fora e conhecer o caos de si – organizar-se constante, mudar de lugar, traduzir e criar linguagens para na nossa própria compreensão. Conhecer-se para ser dono dos próprios afetos e desafetos. Há muito pouco o que se possa fazer contra um homem que conhece bem e atualizado as próprias fraquezas e potencialidades.

Estar consciente de si, dos seus seres e estares, é deixar de ser aquele a quem os outros fazem e a vida faz, para ser aquele que faz consigo e faz com a vida – governador de si, escolhe os próprios caminhos, constrói pontes e estradas, acaba chegando onde quer ou aceita que alguns lugares, é melhor mesmo que não sejam alcançados. Ter consciência de si é que é ser livre.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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