As sombras que carregamos do Malleus Maleficarum

“Todas as malignidades são pouca coisa em comparação com a de uma mulher (…). São Mateus, XIX: Que outra coisa é uma mulher, senão um inimigo da amizade, um castigo inevitável, um mal necessário, uma tentação natural, uma calamidade desejável, um perigo doméstico, um deleitável detrimento, um mal da natureza pintado com alegres cores!

Portanto, se é um pecado divorciar-se dela quando deveria mantê-la, é na verdade uma tortura necessária. Pois ou bem cometemos adultério ao nos divorciar, ou devemos suportar uma luta quotidiana. Em seu segundo livro A Retórica, Cícero diz: “Os muitos apetites dos homens levam-no a um pecado, mas o único apetite das mulheres as conduz a todos os pecados, pois a raiz de todos os vícios femininos é a avareza”.

E Séneca diz em suas Tragédias: “Uma mulher ama ou odeia; não há uma terceira alternativa. E as lágrimas de uma mulher é um engano, pois podem brotar de uma pena verdadeira, ou ser uma armadilha. Quando uma mulher pensa sozinha, pensa o mal”.” – KRAMER & SPRENGER (MalleusMaleficarum)

Antes que o terror das grandes guerras molestasse a toda a humanidade, foram as mulheres o principal alvo de uma guerra que poderia dizer-se mundial, mas completamente covarde. Seus inimigos tinham armas, seus inimigos tinham exércitos, seus inimigos tinham a lei e a fidelidade conquistada a ferro e fogo de todos os cidadãos. Literalmente a ferro e fogo, pois houveram tempos nos quais, explicitamente, aos discordantes era o ferro e o fogo que eram destinados na formado de torturas e sentenças de morte.

Elas (as condenadas bruxas, ou mulheres), o que tinham? Pactos com demônios? Poderes mágicos? Que mal tão grande e poderoso era esse incapaz de reagir a pobres mortais?

Eu diria que uma vez a razão perdeu para o delírio violento dos homens, se não fosse capaz de enxergar que a razão continua a lutar e a perder para o delírio violento dos homens, ainda, em pleno século XXI. Eu poderia dizer que a Idade das Trevas foi um passado longínquo, se não fosse capaz de enxergar as trevas por traz das lâmpadas de led, dos faróis dos carros, das telas coloridas em HD.

Eu poderia dizer que estamos avançando, que estamos evoluindo, se assistisse mais a TV do que conversasse com a realidade. O que posso dizer, apesar de todo o silêncio, é que podemos, e devemos evoluir, mas sem negar o horror que nos circunda, sem deixar-nos enganar pelo circo que nos distrai, sem deixar de ter consciência de que os supostos direitos conquistados andam na corda bamba, principalmente quando se trata de efetivá-los.

O Malleus Maleficarum foi a base erudita utilizada para legitimar inúmeros atos de crueldade contra as supostas inimigas, e alguns poucos inimigos, do deus católico. Quanta massa cinzenta jogada ao lixo para elaboração de um instrumento que, em termos de construção escrita e potencial de convencimento pode ser considerado genial, mas em termos humanos e pelos seus desdobramentos é uma mancha negra na história da humanidade.

O terror e a violência sofrida pelas pessoas que estavam na mira desse instrumento de extermínio e opressão está registrado em livros de história e na ficção como páginas antigas de um momento vivido. No entanto, as sobras desse extremo da humanidade deixaram rastros pegajosos nos quais ainda escorregamos e nos acidentamos diariamente.

Para o Malleus Maleficarum, todas as mulheres eram bruxas em potencial, com exceção daquelas que apresentavam determinadas características de santidade (tipo “bela, recatada e do lar”). Em uma visão ingênua, este poderia ser considerado apenas um instrumento em favor de uma religião poderosa em um momento específico da história.

Mas, não podemos nos esquecer de que, naquele tempo, religião e política eram lados de uma mesma moeda, isso de uma forma assumida e legitimada. Ainda temos em algumas sociedades essa conexão institucionalizada entre estas diferentes esferas, e em outras sociedades temos a conexão veladas entre essas mesmas esferas. Mudam-se os personagens, mudam-se as crenças, mas as vítimas e as atrocidades oriundas dessa aliança preservam traços da mesma natureza.

No Brasil de hoje a caça às bruxas tem ares de guerra fria. Está nas propostas legislativas absurdas que tentam retroceder com os direitos adquiridos pelas mulheres. Está na insegurança de poder andar, se expressar e vivenciar as experiências cotidianas mais banais sem sentir medo. Está na dificuldade em conseguir confiar em uma pessoa do sexo oposto pelo receio da violência que deste pode advir. Está na precariedade de efetivação dos direitos que figuram na constituição e nas leis mais como contos de fadas do que como realidade concreta. Está na hipocrisia de milhões de pessoas que se vestem da fantasia de defensores dos direitos da mulher, mas que diante de uma situação concreta se acovardam em se posicionar, em ajudar, em reagir, pelo medo de serem retalhados junto àquela que foi vítima de uma situação. Não nos enganemos sobre uma suposta evolução do país. O que temos em termos de evolução está mais nos discursos do que na realidade concreta.

A palavra de uma mulher em relação a um crime cometido contra si, inclusive de natureza sexual, não vale nada. O crime acontecido entre quatro paredes, de um homem contra uma mulher, ou em qualquer ambiente isolado, na lei tem garantia de proteção e defesa à vítima, na prática exige testemunhas.

Então, precisaremos voltar a ser bruxas para fazer as paredes, os postes, os objetos falarem sobre o crime que contra nós é cometido, para que a justiça cumpra o seu papel. Ou, melhor, poderíamos voltar a ser bruxas para em um lance de mágica fazer a justiça existir para nós e para todos os outros que dela precisarem.

A situação só piora quando se tratam de crimes de natureza subjetiva, de natureza verbal e psicológica.Precisaremos ainda educar as paredes e estes mesmos objetos para que sejam capazes de explicar à ignorância humana porque aquela situação X é criminosa para que estes seres sejam capazes de cumprir ao texto sobre o qual se baseiam os seus trabalhos públicos remunerados a partir dos nossos muitos impostos.

A qualquer um que deseje enxergar essa realidade, basta considerar o quanto é mais difícil efetivar uma denúncia dessa natureza do que qualquer outra denúncia. Por acaso, quando alguém registra um crime de furto ou roubo, lhe é solicitado algum documento comprovando que o objeto que ele relata ter sido roubado existia? Pedem-se testemunhas que presenciaram o acontecido? É necessário comprovar que o objeto lhe pertencia?

Ele é questionado sobre a relação com o ladrão, sobre a roupa que estava usando, sobre ter facilitado o crime, sobre porque estava passando naquela rua, naquele horário, devendo saber que passar por qualquer rua, em qualquer horário, portando objetos de valor é fator facilitador para ser vítima de um crime de roubo? O que é colocado em dúvida neste caso? A sociedade irá lhe julgar por ter sido vítima de roubo caso este exponha sua indignação publicamente? O autor do roubo, caso identificado, receberá alguma acolhida social por ter problemas mentais ou por não conseguir controlar seus impulsos, porque isso é da sua natureza?

Os crimes cometidos contra as mulheres conquistaram uma lei, conquistaram um texto, conquistaram um status penal, mas não conquistaram as condições para sua efetivação, compreensão e aceitação social dessas situações enquanto criminosas. Isso é verdade particularmente quando esse tipo de crime é de natureza institucional, isto é, envolvendo elementos relacionados aos ambientes de trabalho e educação. Temos ainda a religião continuando a interferir nas decisões políticas, o que apenas faz crescer as dificuldades para que essas conquistas saiam do papel, ou até mesmo para que permaneçam no papel.

Aos que passam a conhecer a realidade de uma situação de violência dessa natureza resta o medo, a desconfiança, a impossibilidade de acreditar que aquilo que uma pessoa do sexo oposto demonstra ser seja de fato o que ela é. As relações mais básicas e naturais que podem se estabelecer entre seres humanos civilizados enfrenta a barreira da dúvida sobre a idoneidade do outro, pois somos obrigados a lidar com uma cultura em que “a ocasião faz o ladrão”.

Cultura que compreende a hipocrisia do silêncio diante da realidade em contraste com a manifestação histérica de supostas atitudes nas redes sociais e conversas informais. Cultura de cultuar atitudes que somos incapazes de colocar em prática. Cultura nenhuma, isso não é cultura, é uma doença social. Uma espécie de paralisia. Aos amigos e simpatizantes das bruxas, cabe se manifestarem discretamente para não serem arrastados e queimados na fogueira junto a elas. E quem poderia culpa-los por isso? Quem deveria pagar de herói para ter sua vida, sua carreira, o seu futuro comprometido por uma atitude correta ou pela luta por conseguir fazer efetivar um direito supostamente garantido?

De obstáculos dessa natureza sofrem todas as minorias. Todas as minorias são bruxos e bruxas sendo caçados sorrateiramente pela esquizofrênica estrutura social e moral que predomina, mesmo que esta não possua uma maioria de adeptos no íntimo: muitos apenas temem a fogueira. Apesar dessa realidade gritante, querem nos convencer de que está tudo bem, de que estamos no caminho, de que as coisas estão melhores.

Não, uma suposta evolução precária não deve nos confortar. Nós apenas não enxergamos com clareza o que está ao nosso redor, pelo excesso de informações conflitantes, pelo excesso de leis que nos convencem por seu texto, mas não nos convencem por sua atuação – mas quem tem conhecimento sobre a sua atuação? -, pelo desconhecimento oriundo do silêncio imposto, das censuras que condenam à exposição e ao isolamento aqueles que se manifestam.

Posso parecer pessimista ao expor dessa forma a situação, mas não é uma questão de pessimismo. Assumir uma realidade ruim, por pior que ela seja, é melhor do que se iludir. Apenas se conseguirmos enxergar o quanto algo está deteriorado temos a chance de saber por onde podemos começar a recuperá-lo, a encaminhá-lo para uma evolução de fato. Nada evolui em um estado de podridão, de doença avançada e progressiva. Nós não evoluímos de fato, a sujeira está embaixo dos tapetes. O que precisamos é começar a expor essa sujeira, a tomar atitude, a mudar de postura, a parar de “postar” e começar a tomar decisões mais coerentes nas situações cotidianas.

Não é preciso fazer parte de um grupo, de um coletivo, ou de uma associação para fazer a diferença. Basta agir de forma consistente a cada pequena situação que nos apareça, que nos exija uma postura, uma decisão. Basta fazer isso com um pouco mais de razão, e com menos hipocrisia. É claro que precisamos nos preservar, é claro que precisamos pensar bem antes de agir. Mas precisamos agir e assumir as nossas dificuldades diante dessas ações: para superá-las.

É irônico, mas é como é, que por vezes tentar fazer efetivar um direito, inclusive no que se refere aos direitos das mulheres, é se expor-se a riscos diversos. É correr o risco de ficar manchado. É correr o risco de tornar-se alvo. Não é simples, não é fácil, não é seguro. Cabe a cada um questionar se quer fazer parte daqueles que assumem uma postura coerente com seus pensamentos e posicionamentos, ou se querem se calar e conviver com a própria hipocrisia.

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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