As fronteiras estão na mente. O mundo é de todos que aqui estão.

Advogados, engenheiros, fisioterapeutas, psicólogos, músicos, escritores, médicos: tantas pessoas talentosas penando pra poderem, simplesmente, exercer suas funções em paz.

Seja em que área for, existe sempre uma panelinha. Como um forte apache, meia dúzia de soldadinhos se protegem. Se armam até os dentes para defende-lo de qualquer “intruso”, um talento em ascensão, ou simplesmente, alguém querendo exercer seu dom, da melhor maneira que sabe e pode.

No também restrito meio da fama, esta realidade é muito óbvia. Reconhecemos todas as vozes e rostos da mídia e são sempre os mesmos por anos a fio. Quando surge alguém novo, com certeza, com raras exceções, partilha da mesma genética ou meio social dos que já estávamos familiarizados. Tem sido assim há séculos.

Um dom é uma sabedoria nata. Como uma semente, ele cresce, cria asas e, se ninguém atrapalhar, um dia vai querer voar e todos se beneficiarão com isto mas, infelizmente, não é assim que muita gente enxerga.

Apesar de, em muitos países, a competição ser quase uma regra pra se “vencer” na vida, a meu ver, apesar de ser aceitável pela maioria de nós, é uma anomalia desumana.

Grande parte das pessoas se apavora ao ver alguém abrir as asas pra decolar. Se sentem ameaçadas, com medo de perder o espaço, o controle, a atenção.

Se tem conhecimento de um bom contato, um emprego ou um caminho que ajude, queira se sentar, elas nunca dirão. Mas o que choca mais, é que muitas vezes, pessoas que nem da sua área são, apesar de terem conhecimento que facilitaria seu caminho, se recusam a fornecer. Essa é a verdadeira mesquinharia !

Onde há medo, não há espaço para o amor, generosidade ou compaixão.

Uma amiga de toda vida, depois de passar quase vinte anos trabalhando em empresas, recentemente desempregada, resgatou com enorme alegria a profissão que nasceu pra exercer. Porém, esta semana recebeu um convite para uma entrevista.

Como a autonomia gerou uma natural insegurança, resolveu ir, mas antes, lembrou-se de outra pessoa que tinha trabalhado com ela, e atualmente se encontra na mesma situação, feliz em sua nova opção profissional, mas ainda lidando os apertos financeiros.

Ela nem pensou duas vezes. Se armou com os dois currículos e foi checar a oportunidade.
Quando a entrevista estava por terminar, viu o momento de mencionar mais uma pessoa. Apresentou o currículo da colega experiente e talentosa no caso de precisarem, uma vez que estavam em busca de preencher varias vagas.

A mulher ficou pasma, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. Ficou muda. Como alguém, precisando trabalhar, em sua sã consciência, ofereceria outro currículo podendo correr o risco de perder a vaga ?

Ela não sabe se foi boa ou má a impressão que causou, mas, com certeza o impacto de sua generosidade deve ter sido profundo.

É mesmo uma pena que muita gente ainda não compreenda que todos têm algo a acrescentar. Há espaço para cada um de nós neste mundo. Se perder o seu, ou não era bom o suficiente ou este não era seu caminho.

Não sejamos hipócritas. Queremos receber os Syrios, mas hostilizamos um conhecido que está tentando chegar a algum lugar? Nunca sabemos a quem estamos hostilizando. Este é exatamente o tipo de medo que sofrem as nações que abominam refugiados e refugiados somos todos. O mundo é de refugiados da fome, da guerra, da tristeza, da solidão.

Um dia fomos refugiados de alguma coisa ou questão. Hoje somos as pessoas que fabricam as roupas que você veste, que limpam suas calçadas, que ensinam seus filhos, que abriram empresas, geraram empregos. São artistas, engenheiros, arquitetos, nobel da paz, da literatura, da ciência, da vida. São os médicos que um dia salvaram suas vidas ou de alguém com quem se importam.

As fronteiras estão na mente. O mundo é de todos que aqui estão.

COMPARTILHE
Adriana Vitoria
Mineira de alma e carioca de coração, a artista plástica, escritora e designer autodidata Adriana Vitória deixou Belo Horizonte com a família aos seis meses para morar no Rio de Janeiro. Se profissionalizou em canto, línguas e organização de eventos até que saiu pelo mundo sedenta por ampliar seus horizontes. Viveu na Inglaterra, França, Portugal, Itália e Estados Unidos. Cresceu em meio à natureza, nas montanhas de Minas, Teresópolis, Visconde de Mauá, e do próprio Rio. Protetora apaixonada da Mata Atlântica e das tribos ao redor do mundo, desde a infância, buscou formas de cuidar e falar deste frágil ambiente e dos seres únicos que nele vivem.



COMENTÁRIOS