Aqui pra nós, eu só acho que a gente devia “se achar” menos e se encontrar mais.

A gente se acha. Repare. Alguém disse por aí que somos “especiais” porque fomos “o único espermatozoide a entrar no óvulo”, porque sobrevivemos aos nove meses de gestação, porque temos um brilho na testa ou sei lá o quê… e nós acreditamos! A gente se acha, sim.

Convencidos de que somos mesmo “únicos”, a gente se acha a última bolacha do pacote, a estrela de Belém, a mãe do Papa Francisco. Até aí, tudo bem. Cada um que se ache o quanto pode. O problema é: enquanto a gente tanto se acha, a gente se isola, se separa, se divide e, aos poucos, se destrói.

A gente acha que vai ganhar no grito, na marra, no muque. Em todo canto a gente se acha. Motoristas acham que acelerar uns contra os outros é um bom jeito de chegar na frente. Torcidas organizadas se enfrentam na rua achando que assim os seus times vão valer mais que os adversários. Colegas de trabalho acham que se contorcer em competições insanas, fofocas, mentiras, manipulações e puxadas de tapete vai fazê-los mais competitivos e vencedores.

Ninguém admite, mas a gente acha que nessa guerra o inimigo é quem estiver perto. E que não atirar é o mesmo que pedir para levar tiro, que não bater é o mesmo que apanhar. Então a gente acha mesmo que o caminho é o velho “salve-se quem puder”. É… a gente acha.

Em nossas casas, a gente acha que a música no vizinho é uma provocação ao nosso direito de ter silêncio. Tem vizinho que atira comida envenenada ao cachorro do quintal alheio porque acha que o bicho late demais. E tem aqueles que acham certo maldizer a família do apartamento de cima porque lá as crianças “brincam” muito. Melhor seria se brigassem e se matassem logo, assim fariam silêncio.

Enquanto casais infelizes se odeiam em franqueza absoluta, infelizes para sempre, a gente acha normal. Como acha normal a conta estúpida de tanto ódio para tão poucas atitudes delicadas. Tanta porrada para meia dúzia de gestos gentis.

A gente acha normal as pessoas que pensam diferente se odiarem, se agredirem. Acha normal alguém ganhar dinheiro nas costas dos outros, policiais agredirem quem eles deveriam proteger, crianças se entupirem de drogas com indicação médica por serem “ativas” demais, professores emprestarem dinheiro de agiotas para pagar o aluguel e o supermercado porque seus salários não subiram na proporção de suas despesas.

É… a gente acha normal o seguro do carro ser tão caro porque o número de assaltos e roubos nas ruas aumentou. Acha que pagar uma fortuna por um plano de saúde é normal porque os hospitais públicos são verdadeiros açougues. E que é normal matricularmos nossos filhos em escolas particulares porque esse é o único jeito de eles entrarem nas faculdades públicas.

Aí acontece o que ninguém acha certo: enquanto a gente acha, o mundo se perde. As estatísticas anunciam o aumento da violência nas cidades. Mortes, assaltos, estupros. E o motorista “honesto”, que joga seu carro com o imposto em dia contra o motoqueiro apressadinho, acha que não tem nada a ver com isso. Porque, afinal, a gente acha que pagar imposto em dia faz de nós super-heróis com licença para todo tipo de barbaridade.

A senhora que maltratou a balconista acha que isso não é com ela. O marido que espanca a mulher, o chefe que assedia a empregada, o gênio que se orgulha de seu péssimo humor contra tudo, contra todos, supondo-se tão inteligente, todos eles acham mesmo que seu comportamento grosseiro e sua incapacidade para a gentileza não contribuem para que o mundo se torne mais frio, apático, hediondo, pior a cada dia.

Você vai me desculpar a conversa pesada, mas eu também acho. Eu acho que a gente perdeu a habilidade da empatia, a capacidade para a doçura. Acho que o que vem depois será mais amargo que a peste.

E acho que a gente devia se achar menos e se encontrar mais por aí. Eu só acho, sabe? Eu só acho.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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