Aqueles que cortejam a morte, nem sempre chegam ao suicídio. Nem sempre…

De ser humano para ser humano, espero que comece a haver aqui nestas linhas escritas com alma e cérebro, um diálogo entre a pessoa que aqui escreve e você aí do outro lado que a lê. Trata-se de uma conversa mesmo. Não é um texto profissional, técnico ou acadêmico.

Apenas algumas palavras pensadas, refletidas e expressas por alguém que acredita que podemos nos salvar uns aos outros. Podemos nos salvar da solidão. Podemos nos salvar do isolamento. Podemos nos salvar da arrogância. E, sobretudo, podemos nos salvar das infinitas ideias pré-concebidas que povoam nossas mentes e corações e nos impedem de ser mais acolhedores tanto com nossas próprias imperfeições, quanto com as imperfeições alheias.

Há tempos tive uma conversa sobre suicídio com uma pessoa que tem sérias dificuldades para compreender que as doenças psíquicas são tão, ou mais, dolorosas e reais do que as doenças físicas, principalmente aquelas que se pode ver.

A pessoa em questão, repetiu uma frase – que de tão repetida já se tornou uma verdade para muitos -, como se aquilo fosse um pensamento lógico e indubitavelmente verdadeiro. Ele disse “Quem quer mesmo se matar, não avisa!”.

Esta e tantas outras ideias preconceituosas acerca do suicídio são muito menos inofensivas do que parecem. Acreditar realmente que aquele que avisa não vai dar cabo da vida é, em última análise uma posição tão egóica quanto desrespeitosa.

Aqueles que falam em pôr fim à própria vida, têm com certeza algum desejo de fazê-lo. Muitos que acabam encontrando no suicídio uma solução para suas dores psíquicas, inclusive, passaram por muitos ensaios e planejamentos antes de colocar em prática essa atitude tão desesperada e solitária.

Aqueles que cortejam a morte, nem sempre chegam ao suicídio. Nem sempre… Mas, inúmeras vezes, matam-se aos poucos de formas menos definitivas. Há os que abusam de álcool, substâncias químicas e medicamentos utilizados sem qualquer tipo de acompanhamento ou supervisão médica. Há os que colocam suas vidas em risco, por meio de relacionamentos vazios de qualquer afeto, consumados por encontros sexuais sem proteção. Há os que se isolam do resto do mundo, numa vida encapsulada e vazia de objetivos.

Estes, apenas não viram num corte sem volta, algo que fosse possível ou viável. Mas, de certa forma, entregam-se a uma morte em vida. Um processo que poderia ser evitado ou revertido, caso alguém tivesse olhado além das aparências; caso alguém fosse capaz de enxergar nessas atitudes de tentar parar a dor, um pedido de socorro.

Uma coisa é fato: todo suicídio levado às vias de fato, um dia não passou de uma ideia. E as ideias, quando ficam perambulando dentro da gente sem lugar para desaguar, acabam por nos afogar.

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Ana Macarini
"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

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