Amigo de fé

O amigo de fé sabe que o elo entre vocês é muito mais forte que qualquer divergência.

Ele tem a certeza de que vocês partilham os valores que importam, apesar de não considerarem as mesmas variáveis e caminhos.

Ele também não deixa de ser seu amigo por vocês não poderem se ver muito. Nada muda entre vocês por causa da distância ou do tempo. Afinal, vocês são amigos de fé.

O amigo de fé te lembra, sem cobranças, que há vinte anos você gostava daquela música que hoje abomina, que antes daquela experiência afetiva, acadêmica ou profissional a sua atitude, em alguns aspectos, era diferente.

Ele te conta quem você era, e te deixa livre pra fazer o que quiser com isso: enxergar os movimentos interiores, resgatar uma porção da sua essência deixada de lado, constatar que alguma transformação operou dentro de você – acontece!- ou simplesmente distinguir o que sempre te pertenceu daquilo que foi colhido no percurso da existência .

O amigo de fé é o único que pode nos alertar para os recalques que começam a criar raízes na alma. E ele fará isso, com certeza, ainda que não por palavras, mas por um jeito de te olhar nos olhos, um sorriso sem graça, uma gargalhada diversionista, uma alteração na voz ou um silêncio prolongado, que só você saberá interpretar .

E quando você liga às 3 da manhã pra desabafar a enorme besteira que fez, o amigo de fé guarda a bronca pra quando estiver tudo resolvido. Naquele momento, ele só diz: “caramba, e agora, como a gente resolve esse nosso problema ?”

Parece que com o passar dos anos tudo vai sendo redimensionado . Entusiasmos, decepções, sonhos, ressentimentos, amores, segredos, nada é imune à mudança de perspectiva da janelinha do trem da vida.

No meio de tanta impermanência, encontramos alguns diamantes. Os amigos de fé são dessas raridades. Eles têm o dom mágico de resistir ao filtro inexorável do tempo.

 

COMPARTILHE
Ana Flavia Velloso
Formada em Direito pela Universidade de Brasília, e mestre pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Advogada, é professora de Direito Internacional Público no Uniceub-DF. É muito feliz na escolha profissional que fez, mas flerta desde sempre com as letras. Também se aventurou pelo jornalismo quando morava na França.



COMENTÁRIOS