Alguém a quem confiar o meu calcanhar

Sabe, eu não sou de aço, é que aprendi com o tempo a sentir dor sem chorar, aprendi a me dobrar com o vento e a navegar de acordo com o mar. Mas toda essa ginástica da alma às vezes cansa. Eu admito, meu sonho mora onde é possível a entrega sem medo do meu calcanhar.

 

Sabe, eu não sou de aço, é que aprendi com o tempo a sentir dor sem chorar, aprendi a me dobrar com o vento e a navegar de acordo com o mar. Mas toda essa ginástica da alma às vezes cansa. Eu admito, meu sonho mora onde é possível a entrega sem medo do meu calcanhar.

Quando nasci, por certo, o médico me suspendeu no ar pelos calcanhares e esperou que eu desse meu primeiro choro. Seria mais bonito se fosse uma risada, mas parece que o prenúncio para que tudo esteja bem com quem nasce é ouvir um chorar.

E depois desse dia eu, cautelosa, toquei o meu calcanhar sabendo estar nele os meus mais profundos medos e segredos. Sabendo que ele resguarda poções que podem me desnortear.

O calcanhar é uma caixa de limitações, uma caixa de temores e ansiedades, é um arsenal de coisas que precisam ser revistas, repensadas, admitidas e quem sabe, com afinco, superadas.

A quem entregamos o calcanhar, entregamos tudo de nós, entregamos a nossa parte mais delicada.

O coração também é muito importante, mas ele é forte, se rasga e se remenda inúmeras e inúmeras vezes ao longo da vida. O calcanhar não. Ele é de vidro.

Se eu tivesse que compará-lo diria que se parece com aquele bibelô de família que carregamos com cuidado. Se quebrar já era, se quebrar vai causar um estrago enorme. E é no calcanhar que moram nossas mais profundas fraquezas.

Sim, porque todos as temos, todos as colocamos quietinhas nesse nosso cantinho discreto e sorrimos para a vida, mesmo quando choramos com o coração.

E o coração é estrondoso no seu pulsar. Já o calcanhar não, muitas vezes ele finge esquecer da importância que tem.

O calcanhar exige intimidade, exige que a gente se afine ao outro de tal forma que ele em sua imensa empatia, se importe conosco na delicadeza de um amor gentil e cuidadoso. O calcanhar exige que esse outro nos ame como somos, mas que tenha consigo a ideia de que amanhã podemos ser melhores.

Aquele que ama o nosso calcanhar pode aceitar nossos momentos de desânimo, mas nunca permitirá que nos entreguemos rendidos, tão pouco usará nossas limitações para direcionar nossos passos. Pelo contrário, ele nos ensina, paciente, a superarmos nossos obstáculos particulares.

O coração se contenta muitas vezes em ser platônico, o calcanhar não. Ele é temperamental, ou se declara ou se emudece de vez. E a gente é assim, prefere vê-lo emudecido, escondido por baixo de calças longas, atrás de piadinhas sem graça ou de convenções sociais.

Então eu finalmente decidi, cansei das calças, dissimulações e meias grossas. O que eu quero hoje é desnudar meu calcanhar. Quero comprar aqueles cremes de massagem para tocá-lo apropriadamente, buscando com isso algum prazer em revelar meus defeitos. Buscando com isso me reconhecer imperfeita como sou e me apoderar de minhas limitações.

Mas não quero só as minhas mãos nele, hoje eu quero mais, quero no calcanhar as mãos desejosas do amor, as mãos cuidadosas daquele que ao me ver desnuda, que ao me ver cheia de fragilidades, que ao me ver repleta de tudo que sou, seja capaz de, corajoso, enxergar e tocar não só o meu coração, mas sobretudo, e principalmente, o meu discreto e enigmático calcanhar.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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