Afetividade masculina

Ao final de cada dia, numa espécie de ritual, ela encosta a cabeça contra o peito dele e diz:

“Vem cá me dar colo, tô precisando.”

Ela sempre faz isso e ele sempre dá. Ele estica um dos braços por trás do pescoço dela e a puxa em sua direção, encaixando-a num lugar seguro, cobrindo-a com o outro braço, como quem empacota algo frágil e valioso.

Todo dia é a mesma coisa. Ela faz aquela cara de satisfeita e ele, aquela de protetor. Ela o percebe como um gigante, intocável, inquebrável, pronto para protegê-la de todo mal do mundo. Ele a vê pequena, dependente e frágil. Assim, nessa simbiose perfeita, pegam no sono todo santo dia.

Acontece que, na noite passada, algo diferente aconteceu. Dengosa, aconchegou-se ao lado dele com seu pedido habitual por colo, mas antes que pudesse alcançar seu peito, foi interrompida:

“Ah, não! Hoje quem quer colo sou eu! Está na hora de mudar este roteiro! Na história do Shrek é assim, da Cinderela é assim, da Branca de Neve é assim. Não é justo. Hoje, quem quer proteção sou eu e desconfio que o Shrek também!”

Antes que ela pudesse contra-argumentar, lá estava ele enfiado como um filhote com frio, no melhor encaixe do corpo dela que ele pode encontrar, fazendo pequenos ajustes para que seus braços o envolvessem com o mesmo cuidado e proteção que ele sempre lhe oferecia.

Ela, quieta, apenas olhou por cima de sua cabeça e, pela primeira vez, o viu menino, pequenino, indefeso e frágil. Pensou em quantas vezes ele sentiu medo e fingiu coragem para que ela se sentisse segura. Pensou nas vezes em que ele sentiu vontade de chorar e se lembrou de alguém dizendo que homem não chora, e engoliu o choro.

Pensou na sua adolescência, quando sonhava em encontrar o homem que a manteria a salvo de tudo, enquanto ele era bombardeado de mensagens, verdades e afirmações de que tinha nascido para exercer aquele papel e, desesperado, dormia pensando no que teria de fazer para se tornar aquele super-herói.

Sorriu ao perguntar-se, afinal, quem tinha inventado tudo aquilo, deixando ao homem a incumbência de ser essa fonte inesgotável de força, proteção e provimento. Respirou fundo, imaginando quanto ele deveria estar exausto de conviver diariamente com toda aquela pressão.

Então, ficou ali, imóvel, até que ele pegasse no sono, abraçando-o com todo cuidado para não quebrar. Se sentiu gigante. Gigante na capacidade de dar na medida que gosta de receber. Gigante na percepção de que, para que bons homens passem a ver mulheres como fortes, é preciso antes conferir-lhes o direito de serem frágeis.

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Lucy Rocha
Advogada, personal coach e fascinada pelo estudo de transtornos de personalidade, administra a página Relações Tóxicas, na qual dá dicas e apoio a pessoas que vivem, viveram ou sobreviveram a uma relação abusiva. Seu maior prazer é escrever reflexões sobre a vida e sobre o ser humano.



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