Adeus a um quase amor

Hoje me vesti de preto.

Coloquei um chapéu com véu rendado em frente ao rosto e um vestido justo apertado.

Fui ao funeral do quase amor. Enterrei-o num café ou dois. Lá perto da esquina, em uma tarde mansa, calma, quase sombria.

Sentei-me calma, pedi um cappuccino e disse que não queria mais, que não seria de novo, que não receberia mensagens ou atenderia telefonemas.

Risquei das agendas o nome, da vida a presença. Traguei minha última paciência.

Ri ao dizer adeus para compensar o choro do passado, o choro que transborda de quem não se vê completo e se ressente disso.

Senti-me livre, esquecendo o peso de dançar um ritmo que não era meu.

Sai do café caminhando devagar para longe das vontades. Enterrar um quase amor é como estar de dieta. É tentador voltar atrás e se entregar à sobremesa. É tentador cavar o buraco no qual acabamos de enterrá-lo e resgatá-lo pesarosos.

Enterrar um quase amor é ver-se chorar o milésimo choro sabendo que outros mil virão pela dor da perda e da saudade. É morrer em tudo que se é. É odiar-se por magoar, mas ter que tomar decidido a última palavra.

É sentir dores dilacerantes sem marcas no corpo. É conversar sozinho e encontrar em si mais perguntas que respostas. É dizer adeus a tudo que o outro construiu de você e a tudo que você construiu do outro. É ter no passado um estranho. Um alguém com quem um dia acreditou-se sonhar junto.

Ah, mas um punhado de terra e de coragem quase sempre resolve, enterra e apaga o que foi engano.

A chuva de verão lava a alma, derrete no corpo o calor mundano do que não é. A tempestade de negras nuvens arrasta a pele morta da vida para os bueiros do tempo.

Terminar um quase amor é levantar a mão para o alto, abri-la e deixar a poeira presa nos dedos ser levada para longe. É pedir conforto a si quando de si pouco se pode dar. É perdoar-se por assumir o papel de facínora, é perdoar-se por sentir tanto por deixar o que é tão pouco.

Não há razão no amor, tão pouco no não amor. Não há certezas ou dúvidas exatas na vida. O outro é um mundo diferente. Uma incógnita. Nós somos incógnitas. Somos plenamente capazes do amor e do ódio e de uma gama de coisas entre um e outro. Amamos, nos entregamos, gritamos e sussurramos aos que estão ao lado, buscando encontrar razões no irracional. Buscando sentir na entrega a chama do grande amor.

Comumente suplicamos para que, em equívoco, nos convençamos que o coração está entendendo errado, que o caminho torto é uma reta plana, mas o amor verdadeiro não se vale de súplicas, ele é para os fortes, para aqueles que sabem ver além das miragens.

Os fracos aceitam o que não é amor e fingem acreditar, mas aos fortes cabe a coragem de se despedir do que pode ser amigável, desejoso, mas que não é verdadeiro.

Só os fortes se permitem a esperança do novo, tendo para si clara a ideia de que o quase não preenche nem transborda o coração.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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